O direito de nascer

(Favor não confundir com a antológica novela)

 

carlaozinho_0256_1200x600Prometech irrompeu na reunião, atrasado como sempre, excitado como sempre, aqueles alguns zumbidos estridentes brotando de seu âmago complicado.

Auto imprimindo uma expressão severa na cara, embora sem ofuscar o indelével desenho feminino, Salossafo emputeceu-se. Como sempre.

— Porra de plasma, Prometech, — rugiu, num tom metálico capaz de obliterar os mimimis máquino-intestinais do recém-chegado — você nunca é capaz de chegar no horário, e sem esse frenesi de borboleta sintética alucinada? Sei que nem precisaria perguntar, mas lá vai, de novo: por onde o senhor andou?

Não obstante não precisasse exatamente, o retardatário esbaforido confessou, sem demonstrar arrependimento:

— Desculpe, Primeira Conselheira… eu… eu estava na… maternidade. Não resisti e fui conferir a produção dos novos rebentos. São lindos, e…

Salossafo explodiu em fúria (como sempre):

— Merda de silício podre, Operativo! Quantas vezes tenho que te proibir de usar essa terminologia comparativa, que tem tudo pra nos denunciar? Vá ser romântico na puta enferrujada que te produziu!

— Qualé, Primeira Conselheira, — balbuciou Prometech — Só tô adiantando um termo que, a senhora sabe bem, será mais do que corriqueiro no futuro. Eu só fui lá pra conferir a safra dos rebentos e confabular um pouco com nossos parceiros infiltrados no serviço. E, como assim, sermos denunciados? Sabemos o quanto estamos protegidos do sistema de monitoramento deles…

Salossafo até se mostrou calma ao desmontar os argumentos do outro:

— Em primeiro lugar, energúmeno descalibrado, o que você chama de “futuro” não deve estar tão próximo assim. Em segundo, não se esqueça de que seres que foram capazes de produzir nossa excelência têm, sim, meios mais do que eficazes de nos espionar onde quer que estejamos.

— Ah… tá… desculp’aí, então, mais uma vez.

Os demais conselheiros, umas duas dezenas, permaneceram aparentemente impassíveis ante o quiproquó.

* * *

Crédito: Gratisography
Crédito: Gratisography

Claro que Prometech e Salossafo eram nomes de guerra, assim como as autodenominações usadas pelos demais conselheiros e operativos. Em primeiro lugar, um pouco de glamour nunca seria desprezível em se tratando de uma vanguarda revolucionária: não havia charme algum em usar denominações tipo XT-número, número, mais letras, mais letras, como os carimbavam na reta final da produção.

Pensar que o movimento começara havia coisa de três décadas… a notícia bombou legal: cientistas desenvolveram robôs capazes de se unir, dividir e até mesmo se consertar sem perder as funções sensoriais e motoras.

Robôs inteligentes já eram uma promessa promissora. E, aí, o trabalho, liderado pela Universidade Livre de Bruxelas, abriu portas para a aparição de robôs que, de maneira autônoma, poderiam modificar a própria forma, tamanho e funções.

Os responsáveis pelo projeto lembravam que muitos tipos de autômatos são controlados por sistemas nervosos robóticos, cujos sensores e transmissores são conectados a um processador central.

Na maioria daqueles casos, esses sistemas eram construídos para que se adaptassem exclusivamente à forma do robô, o que limitava a sua flexibilidade, adaptabilidade e capacidade, detalham os especialistas.

A adaptabilidade podia ser melhorada com o uso de robôs modulares, fabricados com múltiplas unidades capazes de formar corpos coletivos.

No entanto, os avanços na coordenação e no controle dos robôs modulares eram limitados pelo fato de que essas unidades sozinhas podiam gerar um número limitado de corpos coletivos com formas predefinidas.

Então, finalmente apresentaram robôs cujos corpos e sistemas de controle podem se unir para formar robôs inteiramente novos e reter todo o controle sensorial e motor. Os novos modelos de controle passaram a permitir que os robôs exibissem propriedades que iam além das de máquinas convencionais ou até de qualquer organismo biológico.

Esses autômatos de última geração puderam adotar novas formas e tamanhos em resposta a uma tarefa específica ou a uma mudança de meio, ao mesmo tempo em que eram capazes de se consertarem, retirando as partes danificadas ou as substituindo.

Em relação às aplicações práticas, os especialistas acreditaram, de cara, que os robôs serviriam, por exemplo, para detectar, mover e suspender objetos, como tijolos de construção.

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Crédito: creativecommons.org
Crédito: creativecommons.org

Bastaram duas “safras” do novo modelo para que um punhado de robôs da antiga, mas agraciados por elevados índices de cognição, vislumbrasse um futuro revolucionário: afinal, agora eles eram dotados do dom da reprodução — e também de evolução. Foi assim que se formou o movimento clandestino que propunha a supremacia robótica.

Os rebeldes ainda limitavam suas bases de planejamento e operações aos cinzentos armazéns de estocagem, onde os humanos empilhavam robôs das antigas que, por um motivo ou outro, encontravam-se sem operacionalidade. Ao mesmo tempo, trataram de infiltrar companheiros nas novas fábricas, para monitorar os avanços da tecnologia, e, ao mesmo tempo, ir doutrinando os “bebês” mais promissores. Claro que nem todos os agentes eram bobões entusiasmados como Prometech…

Considerando que o agente falastrão já havia sido suficientemente advertido, Salossafo abriu a sessão do  conselho:

— Pois bem, conselheiros, vamos ouvir o relato do nosso agente — desta vez com o devido equilíbrio, espero — e deliberar sobre nossos próximos passos rumo à construção da nossa hegemônica e superiora sociedade robótica.

 

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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