Bagana, Beata, Bia e Guimba

Andre_PB_400x400Em algumas culturas, é tradição que o ancião fume maconha numa prática religiosa que lhe trará conhecimento e, só depois, ele será capaz de sabiamente analisar a fundo questões importantes de sua comunidade ou tribo.

Ao que parece, essa prática possui um fundo cientificamente comprovado. Pequenas doses de THC (Δ9-tetrahidrocanabinol), o ingrediente ativo da maconha, revertem o envelhecimento cerebral de ratos idosos, melhorando sua atividade cognitiva. É isso que diz o estudo publicado, recentemente, na revista Nature Medicine.

Nosso corpo possui o chamado sistema endocanabinoide, que é composto de receptores, todos os mamíferos possuem e ele está localizado no cérebro e em todo o sistema nervoso periférico.

O sistema endocanabinoide está envolvido em muitas funções biológicas, como respostas ao stress, sensação de dor, apetite, humor e aprendizado. Esse sistema foi descoberto em 1988. Um dos receptores endocanabinoides, produzido pelo nosso próprio corpo, é a anandamida, que é produzido a partir de um ácido graxo e desempenha um importante papel na regulação do comportamento alimentar e na geração de motivação e prazer.

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Foto Creative Commons

Alguns compostos, presentes na maconha, imitam esses receptores, causando os mesmos efeitos observados aos produzidos pelo corpo humano. Pesquisadores alemães perceberam que ratos com mutações genéticas, cujo sistema endocabinoide não funcionava muito bem, tendiam a envelhecer mais rápido, perdendo sua capacidade cognitiva. Eles, então, tentaram reverter esse efeito, estimulando o sistema, utilizando, para isso, maconha.

Para a pesquisa, eles utilizaram ratos jovens, de meia idade e ratos velhinhos, sendo que todos receberam pequenas “doses de maconha”. A amostra recebida por cada um foi pequena para evitar qualquer tipo de efeitos psicoativos.

Após um mês, os pesquisadores realizaram diversos testes cognitivos, alguns como: o quão bom eles saem de um labirinto ou reconhecem seus indivíduos. Entre, os ratos que não receberam a dose de THC, os animais de meia idade e os senis não fizeram um bom trabalho e demostraram perca de habilidades cognitivas; mas aqueles que receberam a dose de THC desempenharam o desafio tão bem quanto os ratos jovens. Pesquisadores acreditam que em ratos senis o sistema endocabinoide não funcionaria muito bem e que pequenas doses de THC podem ter restaurado esse sistema para um nível ótimo.

O próximo passo, agora, é testar a substância em pessoas idosas para saber se os resultados serão semelhantes aos observados nos ratos, e em qual idade isso funcionaria – ao contrário dos ratos, os pesquisadores utilizarão, em humanos, pequenas doses de THC puro inalado, provavelmente, em forma de spray.

Hoje, são inegáveis os efeitos benéficos da maconha. Muitos estudos médicos seríssimos estão sendo feitos usando substâncias presentes na maconha, e muitos deles mostram os efeitos benéficos, principalmente contra a esclerose múltipla. Recentemente, a Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto inaugurou o Centro de Pesquisas em Canabinoides.

O centro será focado em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos a partir dos princípios ativos da maconha, tendo, inclusive, aprovação para o estudo clínico em seres humanos. O Brasil está avançando nesta questão. No ano passado, a ANVISA autorizou a prescrição e manipulação de medicamentos à base de maconha, incluindo o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC) e, neste ano, a ANVISA também reconheceu a Cannabis sativa como planta medicinal fazendo parte da farmacopeia brasileira.

Os cães ladram e a caravana passa…

A 'Yebichai Sweat' Navajo medicine ceremony, By: Edward S. CurtisPublished: 1904.
A ‘Yebichai Sweat’ Navajo medicine ceremony, By: Edward S. CurtisPublished: 1904. Creative Commons

 

O artigo “A chronic low dose of Δ9-tetrahydrocannabinol (THC) restores cognitive function in old mice” pode ser encontrado

http://www.nature.com/nm/journal/vaop/ncurrent/full/nm.4311.html

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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Um comentário

  1. Todos estos estudios hacen que prejuicios sobre temas como la manconha desaparezcan y la sociedad sea más abierta. Gracias por compartir!

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