Pão, pão, queijo, queijo

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Peço desculpas a quem espera encontrar nesta semana um texto científico sobre alguma descoberta que poderia mudar a medicina ou a engenharia, mas hoje vou ensinar uma receita de um típico prato espanhol.

Cada um de nós leva dentro de si uma história sobre comida e também a influência que ela exerceu sobre nossas vidas.

Outro dia saí para almoçar com minha esposa, e ela me apresentou o famoso prato “migas espanholas”. Gosto muito de comida e experimentar um novo prato é sempre desafiador, pois envolve se acostumar a novas texturas, cores, cheiros e, obviamente, sabores. Me surpreendi logo após a primeira garfada, pois, de alguma maneira, já provara aquele prato antes, poderia reconhecê-lo de algum lugar. Minha mente me levou a anos atrás trazendo lembranças que vivi.

Comida faz isso às pessoas: traz lembranças e memórias passadas, assim como cheiros e situações vividas trazem.

Lembrei-me de quando tinha por volta de dez anos, da época da colheita do café lá no sítio.

Típica miga de Saragoza (Foto: Arquivo Pessoal)
Típica miga de Saragoza (Foto: Arquivo Pessoal)

Época de colheita envolvia o trabalho de todos: mãe, pai, avôs, tios e irmãos; as pequenas propriedades sempre foram dependentes de trabalho familiar.

A vida na roça começava cedo, antes mesmo das seis da manhã e, por causa disso, costumava-se almoçar por volta das dez. O almoço vinha em um prato coberto com outro e ambos embrulhados em um guardanapo de algodão tendo um nó acima: arroz e feijão e junto a mistura, que era uma carne com algum refogado de abobrinha, flor de abóbora com ovo mexido ou quiabo frito. Comíamos ali mesmo, embaixo dos pés de cafés, para não perder tempo, pois havia muitas ruas pela frente.

Às três da tarde, era a segunda parada para a hora do café da tarde, essa mais importante que o almoço, minha mãe e minha tia desciam para casa antes para deixar tudo pronto. Café recém coado, pão, algum doce (geralmente de abóbora), queijo fresco e as famosas migas espanholas, ou como já a conhecia: “farofa de pão com ovo frito”.

Minha mãe a preparava numa velha frigideira de ferro, já negra pelos anos de fogão à lenha. O preparo era simples: adicionava-se uma colher de banha de porco (vindo da última matança), e ali se fritava uma cebola picada e a deixava dourar. Em seguida se adicionava salsinha e cebolinha muito bem picada e com sal, mexia-se muito bem e sobre isso se quebrava cinco ovos, deixava-os fritar e, quando a gema estava a ponto de firmar, mexia-se tudo de modo que os ovos ficassem bem quebrados em pedacinhos. Em seguida, adicionava-se a farinha de pão. Sobras de pão caseiro, feitas religiosamente todo sábado, o pão velho era ralado grosseiramente ali mesmo na frigideira em cima dos ovos, os sucos da cebola e da banha deixavam aquela farinha de pão úmida e suave. A tudo isso se misturava de modo a obter uma farofa brilhante e, acreditem, deliciosa.

Meu pai e os outros chegavam no exato momento em que a frigideira fumegante era posta sobre a mesa. Era hora de tirar o chapéu molhado de suor, tomar um generoso gole de água e comer.

Ali comíamos todos. O sabor da farofa de pão com ovos, o cheiro do café fresco coado, tudo vinha ao nariz e levava até a mente uma sensação que não tenho boas palavras para descrever, talvez felicidade e prazer.

Enquanto comíamos, falava-se sobre a colheita do café, de que dois ou três dias mais já se terminava tudo, que depois era só pôr para secar no terreirão e levar para Cajobi para descascar lá na máquina do Geraldo. Minha mãe comentava sobre um ninho de galinha encontrado embaixo de um pé de café…

Comer é mais do que dar ao organismo energia ao metabolismo, comer envolve compartilhar alegrias, envolve trazer à memória lembranças vividas e pintadas com cores vivas. Comer envolve rir de piadas bestas ditas à mesa, envolve lamber os dedos quando escorre goiabada. Comer é viver em mente e corpo.

 

“Nossa obsessão por alimentação saudável criou um mundo onde o ponto final de tudo aquilo que comemos será para a criação de uma forma física perfeita. A imagem fotográfica idealizada é o centro do nosso mundo, a aparência estética é confundida com noções de saúde, a foto do Instagram sinaliza a nossa moralidade. Os alimentos devem ser muito mais do que um remédio para controle de peso.

A alegria culinária deve ser livre de regras, restrições e culpas. Ninguém deve se sentir culpado pela comida, ninguém deveria sentir vergonha sobre um bolo, um sanduíche, uma barra de chocolate ou um pacote de doces. Todos os alimentos podem ser abraçados, porque todos os alimentos são saudáveis, de alguma maneira tudo pode fazer parte de uma dieta equilibrada. É apenas a nossa obsessão pela saúde que tornou as coisas tão diferentes.”

Anthony Warner

 

Hoje, diante de uma ditadura de padrões, foi necessário encontrar um vilão para pôr a culpa e, marcada a ferro quente, a comida virou inimiga do que é ser feliz.

Por nossa infelicidade, culpamos o que comemos e o prazer que existe nisso. O pão traz um veneno mortal chamado glúten, algo que só soube que existia quando estava na universidade. É preciso livrar-se dele urgentemente dizem os especialistas de nada. Doces, geleias e sucos trazem enfermidades e levam à feiura do corpo.

Comida deve ser evitada para alcançar um padrão falsificado do que é viver com saúde. Não entendo essa contradição entre comer e viver bem consigo mesmo, come-se para viver bem não o contrário.

Muitos falsos profissionais de nutrição e de saúde ditam o que se deve e não comer. Tudo isso vem em nome de uma falsa ciência, baseada tão e somente em suas crenças, tudo focado unicamente em trazer para dentro de sua seita pessoas infelizes; sim, o sucesso desses profissionais depende de pessoas tristes com o tamanho de suas bundas, que vivem lutando para serem aceitas num mundo feito de tinta guache.

Eles se justificam dizendo que querem levar saúde, mas, no fundo, querem vender livros estúpidos cheios de soluções simples e fáceis. Como se o mal que sofremos fosse pela falta de sucos detox, de grãos de cevada orgânica ou de sal rosa do Himalaia.

A ditadura da comida saudável está aí, grosseira e impiedosa com quem falhar.

 

 

 

 

Este texto eu dedico ao Heyttor Barsalini, que desenvolve um trabalho incrível sobre comida. Ele criou uma página no Facebook chamada “Receitas Históricas Brasileiras”, o objetivo é discutir a cultura brasileira, através da alimentação. Seja por pratos antigos e tradicionais (e suas origens e curiosidades), seja por pratos contemporâneos.

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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