Plano Diretor de Campinas: estratégia de desenvolvimento e cidadania

rita-amoroso_161206_006_400x400Cidadania, uma palavra muito falada na atualidade, ao mesmo tempo em que, muitas vezes, se perde no meio de tanta informação, caindo no vazio – o que ela significa realmente?

A sua origem vem do latim civitas, que quer dizer “cidade”, usada desde a Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa tinha ou poderia exercer. Segundo Dalmo Dallari:

“A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social”. (In: Direitos Humanos e Cidadania. São Paulo: Moderna, 1998, p.14)

Se quisermos ter um país mais justo, precisaremos trabalhar incansavelmente para adquirir novas conquistas. Demos passos importantes com a democratização e a elaboração da Constituição de 1988. Por outro lado, não é apenas pagando impostos e votando nas eleições que se pratica cidadania, pois estas são apenas uma parte das ações que devemos e precisamos fazer conscientemente.

Foto Martinho Caires
Foto Martinho Caires

Importante lembrar que existem ainda inúmeras barreiras culturais e históricas para que a plenitude da cidadania aconteça de verdade, havendo a necessidade, de início, que tomemos coragem para agir no combate à corrupção, ao “jeitinho brasileiro” para tudo e à falta de seriedade na coisa pública.

Precisamos construir e conquistar nossos direitos entendendo que somos merecedores deles, ou seja, que eles não são concessões nem favores. Com efeito, são conquistas e avanços arduamente trabalhados devido, justamente, à nossa capacidade de organização, articulação e participação social.

Claro está que a cidadania não é fácil ainda de ser exercida, exige perseverança, como dito, para dar prosseguimento na luta, vale dizer, para fazer valer os direitos adquiridos – direitos estes que podem não se realizar na prática, apesar de já os termos conquistados.

Sim, o cidadão deve estar sempre atento e participativo para constantemente fazer valer seus direitos conquistados.

E ainda assim devemos assumir novos papéis, entendendo que cidadania é uma construção permanente que exige uma mudança de consciência junto à construção de novas relações. Portanto, sem a convivência diária na vida social, tanto quanto na vida pública, nunca atingiremos esse grau de entendimento de cidadania, uma vez que ela é convivência com o estabelecimento de relações com todos, com a coisa pública e também com o meio ambiente.

Enquanto houver vida no planeta devemos praticar a cidadania: não se trata de um momento apenas, e sim de uma existência inteira que envolve temáticas a serem discutidas, tais como solidariedade, democracia, direitos humanos, ecologia e ética.

Os desafios aparecem todos os dias e também mudam, se transformam devido à própria natureza não estática da realidade. Daí que precisamos acompanhar esses desafios atentos para as novas conquistas, e, portanto, aumentando a cada dia mais a cidadania.

Estamos iniciando o ano de 2017 sabendo que coisas boas aconteceram em 2016, mas que temos ainda um longo e difícil caminho pela frente relacionado à cidade de Campinas.

Nosso Plano Diretor recebeu mais um fôlego para as discussões finais, sendo esse momento importantíssimo para todos nós, cidadãos que sonham viver em uma cidade mais justa, mais sustentável e includente.

Foto Martinho Caires
Foto Martinho Caires

A hora de demonstrarmos nossa cidadania é agora: todos devem participar com vontade se inteirando de suas necessidades e de suas relações de vizinhança, para que os ajustes aconteçam às claras e atendam as necessidades coletivas.

Temos que ter consciência de que este Plano Diretor só terá significado real se for amplamente discutido com todos os membros da sociedade, pactuando com suas mais diversas necessidades e seus mais profundos anseios.

É muito importante que a sociedade se aproprie de sua força e seu poder de decisão, discutindo junto com todas as suas bases, ONGs, instituições, universidades e grupos sociais, enfim, ligados a uma cidade para todos.

Durante as últimas reuniões realizadas no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas para apresentação do Plano Diretor, foi mencionado que ele voltará a ser apresentado a todos os segmentos da sociedade a fim de se discutir e coletar mais informações que o enriqueçam. Portanto, faz-se necessário que os setores se organizem de forma concreta para não deixar passar essa grande oportunidade.

Primeiro, devemos nos inteirar das propostas existentes, e isso o governo tem o dever de favorecer através da disponibilização do material completo para que se façam as discussões com leitura clara dos espaços da cidade com suas futuras intervenções, para, em seguida, podermos intervir de forma também clara, direta e objetiva. Tudo isso entendendo que, na atualidade, a cidade é um corpo que tem vida e cresce à revelia de “planos”, pois evolui pela necessidade recorrente.

Temos que trazer todos para dentro da cidade que queremos, sem exceção e da melhor maneira que conseguirmos, o que exigirá um esforço enorme de todos nós, e não apenas dos dirigentes.

Nesse momento, cabe a nós agirmos participando, cobrando ações e nos posicionando frente às demandas existentes e futuras. Que cidade queremos para viver? Que futuro teremos? Estas são questões que devemos nos colocar imediatamente.

Foto Martinho Caires
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Sobre Maria Rita Amoroso

Arquiteta Urbanista amante da arte, da cultura e da vida. Campineira de nascimento, mas com DNA mineiro que faz o sangue ferver ao ver montanhas, rios, casarios, ruas e gente. Fervura de amor, e se preciso de luta por essa gente que sente, que fala, que ri, que chora, que vive e se percebe e se emociona como as cidades que possuem vida porque tem pessoas. http://mariaritaamoroso.com.br

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11 comentários

  1. Aloisio Silveira

    O exercício da cidadania está equacionado de forma direta com o padrão da capacidade de criticar do cidadão. A formação educacional de qualidade habilita a pessoa a fazer críticas de largo alcance capaz de alterar o seu entorno.

    • Prezado Aloisio

      Com certeza é necessario aumentar essa massa critica e com certeza passa em primeiro lugar conquistando educaçao de qualidade para todos.

      Muito abrigada .

  2. Parabéns Rita! Artigo atualíssimo.
    É muito importante que essa discussão sobre o plano diretor de Campinas alcance o maior número de pessoas porque, com certeza, vai afetar a vida de todos.
    Seja bem-vinda ao Blog!

    • Prezado Martinho

      Com certeza pois a grande prejudicada acaba sendo mesmo a cidade.
      A discussão do Plano Diretor deve ser feita ouvindo a todos os seguimentos desde pequenas associações as grandes,entidades,universidades ,empresários enfim quem vive a cidade e produz a cidade .
      Para conseguirmos ter uma cidade mais includente e com qualidade de vida precisamos estar abertos ao dialogo ,sabendo ouvir e propondo soluções visando sempre o coletivo.

  3. Ótima aquisição do Blog. Parabéns Maria Rita, por mais este espaço conquistado. Planejamento só se faz respeitando o passado, ouvindo o presente e almejando o futuro. Campinas é uma cidade desenvolvimentista, mas também de riquezas culturais e ambientais ímpares, e como tal merece todo o cuidado e seriedade em seu trato. Vamos todos batalhar por um Plano Diretor eficaz, aplicável, e condutor para um Futuro ainda melhor. Uma Campinas geradora de Riquezas, com Qualidade-de-Vida, com Mobilidade e Ordenação e muitas Oportunidades para seus munícipes!

    • Prezado Alan

      Sua fala é inspiradora e correta .
      Sabemos que Campinas é uma cidade desenvolvimentista que carrega riquezas culturais e ambientais indiscutíveis e que merece um olhar atento nesse momento de conclusão de nosso Plano Diretor visando sua proteçao e conservação de sua historia.
      Nao se pode avançar esquecendo suas raízes ,sua história e de todas os atores que a construiram .
      Necessário se faz nesse momento ter um olhar para o futuro mas não esquecendo seu passado .
      Preservar o passado nao significa engessar a cidade ou impedi-la de produzir suas riquezas mas pelo contrario ,utilizar seu Patrimônio Cultural como motor de seu ordenamento territorial .
      Essa é uma das maneiras de se preservar sua historia com qualidade de vida .

  4. Parabéns pelo artigo!!! Fala-se muito em pertencimento, mas pouco se faz para tal. Depende de todos para termos a cidade que queremos e precisamos.

    • Prezado Fabio

      Muito boa sua colocação .
      Realmente fala-se muito em pertencimento ,mas na verdade nem todos se reconhecem nos espaços e lugares onde vivem .
      Pertencimento é tambem reconhecimento e quando isso acontece existe uma vontade de lutar para preservar o que lhe é caro .
      Voce esta correto quando fala que depende de todos para termos a cidade que queremos e precisamos e
      digo mais , será o querer e a vontade os responsaveis pelas mudanças reais.
      Pois foram as discussões mal elaboradas e mal interpretadas que levaram-nos nessa situação atual.

  5. MARIA BERNADETTE RIBEIRO ROMEIRO

    Parabéns Rita pelo excelente artigo que, além de muito consistente e encorajador, deixa transparecer sua paixão pela vida e pelo seu trabalho, qualidade que considero absolutamente essencial para envolver e sensibilizar as pessoas.
    Como membro da diretoria do Instituto Cultural Guilherme de Almeida, entendo o valor e a importância da perseverança para alcançarmos os nossos objetivos. Entretanto, no que diz respeito ao Plano Diretor, somente com a abertura de uma verdadeira e organizada possibilidade de participação nas futuras discussões é que será possível de forma efetiva e democrática garantir que o Plano atinja seus objetivos.
    Vamos ficar atentos para não deixar passar essa importante oportunidade de exercer nossa cidadania.

    • Querida Bernadette

      Obrigada .
      Sim ,precisamos acompanhar de perto as ações relacionadas principalmente ao nosso Patrimônio Histórico Cultural que nos é tao caro .
      A participação se torna importante nesse momento em que o Plano Diretor chega ao seu final .
      Acredito que o Instituto terá um importante papel nesse momento contribuindo junto aos conselhos com propostas que possibilitem fixar os pactos necessários para ajudar na preservação de nossso ainda rico Patrimônio Cultural pouco discutido .
      Conto com sua participação e de todos os membros do Instituto Cultural Guilherme de Almeida .

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