Um longo caminho pela frente

Andre_PB_400x400Um grande problema para quem estuda ciências relacionadas com alimentação e nutrição é que, para desenhar experimentos que nos forneçam dados acurados sobre efeitos de uma dieta no organismo, é bastante complicado.  Muitos experimentos são bastante básicos para nos dizerem algo, muitos são realizados em placas de Petri e em animais. Infelizmente, o corpo humano é, de longe, mais complexo, e muitos estudos realizados são bastante duvidosos.

Muitos efeitos somente são observados após um longo período de tempo e, para obter resultados rápidos, trabalha-se com suposições baseadas em resultados obtidos em tecido celular ou em ratos. Por isso, são bem poucas as descobertas baseadas em uma situação mais voltada à vida real, feita com pessoas e que abrangem longos períodos de tempo como, por exemplo, os efeitos da ingestão de algum alimento ao longo dos anos.

(Foto Arquivo Pessoal)
(Foto Arquivo Pessoal)

Uma questão que, até muito tempo, ficou sem resposta e, agora, foi resolvido, são os efeitos, a longo prazo, em mulheres vivendo muito abaixo do peso e a menopausa.

Um estudo publicado, neste mês, na conceituada revista científica “Human Reproduction” ficou pronto após um período de mais de 20 anos de análises e mostra que mulheres que estão muito abaixo do peso têm mais probabilidade de sofrer de menopausa prematura.

Todas as que estiveram abaixo do peso, em algum momento de suas vidas, têm, em média, 30% mais chance de desenvolver menopausa antes da idade de 45 anos, quando comparadas com mulheres com peso considerado normal. Mulheres que estiveram abaixo do peso até a idade de 35 anos estão com 59% mais de possibilidade de apresentar menopausa precoce.

A extrema perda de peso, na juventude e adolescência, também mostra efeitos, e ainda mais fortes: mulheres abaixo do peso, que perderam 9 quilos ou mais em, pelo menos, três vezes, entre a idade de 18 e 20 anos estão mais que duas vezes mais sujeitas a desenvolver menopausa prematura.

O trabalho foi realizado pela Universidade de Harvard e Massachusetts e foi feito com quase 79 mil mulheres com idades entre 25 a 45 anos. Os pesquisadores acompanharam essas mulheres por um período de 22 anos, de 1989 até 2011.

(Foto Arquivo Pessoal)
(Foto Arquivo Pessoal)

No ano de 1989, elas responderam a um questionário de saúde e, a cada dois anos, as informações eram atualizadas, com novas informações médicas de seus estados de saúde como a descoberta de alguma doença, gravidez, se praticavam esportes, se fumavam, dentre outras.

Para estipular o peso das participantes, foi utilizado o IMC, e eram consideradas como abaixo do peso as que apresentavam valores abaixo de 18,5. Menopausa precoce afeta menos de 10 % das mulheres e está relacionada com maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, osteoporose e perda de desenvolvimento cognitivo.

Os pesquisadores não comentam as razões de algumas mulheres participantes estarem abaixo do peso. Acredito que eles preferiram abranger um espectro maior de causas ao invés de somente se limitar somente a um grupo específico.

O próximo passo, agora, é entender de que maneira estar abaixo do peso influencia no aparecimento da menopausa precoce.

 

Quem quiser saber mais sobre este trabalho, “Adult adiposity and risk of early menopause”, o mesmo pode ser encontrado free no site da Editora da Universidade de Oxford.

https://academic.oup.com/humrep/article/doi/10.1093/humrep/dex304/4562350

 

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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