Estamos ficando burros?

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É inegável que as redes sociais tenham dado voz a muita gente. O escritor Umberto Eco disse uma vez que a internet deu voz aos imbecis, mas penso que este direito me parece bastante democrático e importante. Sendo assim, todos podemos contribuir com ideias e opiniões e, juntos, podemos fazer uma sociedade mais justa e crescer em conhecimentos e tecnologia, certo? Bem, deveria, mas não é isso o que vemos, tamanha é a quantidade de discursos de ódio que brotam diariamente das redes sociais.
Dizem que, quando Donald Trump se tornou um forte candidato a se tornar o presidente dos Estados Unidos, palavras de racismo se tornaram bastante aceitáveis pelas pessoas; no Brasil, com o avanço da popularidade de alguns candidatos e organizações, ao que parece, a situação é bastante parecida. Pesquisadores mostraram que, quando as pessoas são expostas a grosserias e ofensas em comentários políticos, elas responderão com mais grosserias, como uma espécie de círculo contagioso.
Um estudo feito pela Universidade de Massachusetts e que foi publicado pela revista científica arXiv mostrou que o nível de conversações nas redes sociais se tornou mais agressivo e menos sofisticado em níveis linguísticos. Os pesquisadores analisaram 3,5 bilhões de comentários em redes sociais, como Facebook e Reddit, de 2,5 milhões de pessoas entre os anos de 2007 e 2017 (período entre a presidência de Barack Obama e os 100 primeiros dias da presidência de Donald Trump).
Os cientistas dividiram os comentários em dois grandes grupos: de um lado estavam discussões e opiniões relacionadas à politica e no outro grupo haviam discussões não relacionados com política. Eles analisaram a frequência no uso de palavras ofensivas e mediram também se as discussões eram civilizadas ou não.
Os resultados mostraram que nos comentários, nos posts relacionados com política, a utilização de palavras agressivas era 35% maior quando comparada com os comentários de grupos de não políticos, e que o nível de ofensas e discursos de ódio aumentou muito durante o período eleitoral dos EUA (de maio de 2016 a maio de 2017), mais que em outros períodos.
O trabalho mostrou que existe uma forte relação entre o aumento da popularidade de Donald Trump e o aumento de discussões ofensivas e agressivas. O próximo passo foi medir o nível de sofisticação dessas discussões e a complexidade linguística dos comentários. Os pesquisadores utilizaram um teste chamado de Teste de Legibilidade Flesch-Kincaid que mede a linguagem usada por crianças e adolescentes em colégios nos Estados Unidos. Esse teste mostra o quão complexo ou simplista é aquilo que foi escrito. Eles notaram que a complexidade daquilo que era exposto nos posts caiu para níveis de complexidade utilizada por crianças com idade de seis anos. O mais triste é que, antes, o nível de complexidade era de crianças de 12 anos.
Frases feitas e um nível de sofisticação de crianças (Creative Commons)
Frases feitas e um nível de sofisticação de crianças (Creative Commons)


Eu imagino que, se uma pesquisa parecida for feita no Brasil, os resultados seriam bem parecidos ou até piores.
Transcrevo dois comentarios de minha rede social de um post sobre política: um deles é de um empresário com doutorado em uma grande universidade pública brasileira, autor de alguns artigos de sua área, com especialização na Europa e o outro é de um garoto de 16 anos terminando o ensino médio em uma escola pública. Você seria capaz de adivinhar qual comentário pertence a qual pessoa?

“Chamam o presidente de corrupto, bandido e ladrão, sabem pq? Pq ele é mesmo.”

“O Brasil precisa imediatamente parar de sustentar estes bandidos e vagabundos com o nosso dinheiro.”

O nível de discussão e complexidade do que é dito é bastante parecido e é difícil identificar qual veio de alguém, de que se esperaria um pouco mais de sofisticação nos argumentos, e qual veio de uma criança terminando o ensino médio. O estudo publicado fez exatamente isso com 3,5 bilhões de comentários e mostrou que, em média, as discussões e opiniões das pessoas caíram muito em qualidade ou ao que os autores desse trabalho definem como “uma forte correlação com a incivilidade, apoiando a teoria de que a identidade partidária leva as pessoas a experimentar emoções de entusiasmo e raiva.”
Uma pena fazer uso dos asininos, que são animais incríveis, mas será que estamos ficando burros? Hoje estamos diante de inúmeras fontes de conhecimento disponíveis gratuitamente para todos. É possível acessar livros dos mais prestigiados escritores, assistir a palestras de economistas, políticos, escritores e artistas pelo TED; visitar museus ao redor do mundo. Em suma, hoje é possível absorver conhecimento como uma esponja, mas, mesmo diante desse mar de conhecimento, ainda preferimos morrer afogados nele.
O resultado desta pesquisa “Online Political Discourse in the Trump Era” pode ser baixado gratuitamente em

https://arxiv.org/abs/1711.05303

[1711.05303] Online Political Discourse in the Trump Era
arxiv.org

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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