Muitos enxergaram no filme um testamento-manifesto de Wadja (Foto Divulgação)
Muitos enxergaram no filme um testamento-manifesto de Wadja (Foto Divulgação)

“Afterimage”, a imagem que fica de Wajda é poderosa

“Afterimage” é o último filme do polonês Andrzej Wajda, que morreu aos 90 anos em 2016. Foi uma despedida em grande estilo, com um filme melancólico sobre o papel da arte diante de um regime autoritário como a União Soviética de Stálin. Muitos enxergaram no filme um testamento-manifesto. E, para além das imagens, o que fica é uma mensagem poderosa, que emociona.

O filme se situa entre 1948 e 1952, no auge da linha-dura de Stálin (Foto Divulgação)
O filme se situa entre 1948 e 1952, no auge da linha-dura de Stálin (Foto Divulgação)

Wajda conta a história do artista e pintor Wladyslaw Strzeminski (1893-1952), interpretado com grande inspiração por Boguslaw Linda. Companheiro de Malevich e outros na criação da arte moderna e tido como o maior artista polonês do século passado, o pintor perdeu uma perna e um braço na Primeira Guerra Mundial. Não queria ser tratado de maneira diferente e seguia a vida pintando e sendo referência para seus alunos na Escola de Belas-Artes de Lodz. Em 1934, fundou o Museu de Arte Moderna da Polônia, um dos primeiros da Europa, e tudo ia bem.

O nome do filme é referência a um dos aspectos da Teoria da Visão (Foto Divulgação)
O nome do filme é referência a um dos aspectos da Teoria da Visão (Foto Divulgação)

O filme se situa entre 1948 e 1952, no auge da linha-dura de Stálin. O artista começa a se rebelar contra as imposições do regime soviético na arte e luta por liberdade de expressão. Em uma palestra, um representante do governo fala sobre arte, para que serve e a quem deve servir, quando Strzeminski levanta e pergunta: “Mas o que é arte?” Logo entende-se que ele não vai colaborar e é declarado inimigo. Sua recusa em seguir e produzir arte no estilo “realismo socialista” imposto o leva a uma vida de perseguições e penúria. Não consegue mais sustentar a filha, que passa a viver em um abrigo onde a mensagem do socialismo é dura e contundente, o que acaba provocando mudanças em suas atitudes em relação ao pai. Enquanto isso sua arte é retirada das galerias e sua existência é apagada da história.

"Mas o que é arte?" (Foto Divulgação)
“Mas o que é arte?” (Foto Divulgação)

Wajda, idolatrado no mundo do cinema, com Palma de Ouro em Cannes em 1982 por “O Homem de Ferro”, Oscar pelo conjunto da obra, Urso de Ouro e o respeito da crítica, resgata com emoção a história desse artista “apagado” e prova que ninguém ou nada se apaga assim tão facilmente. O nome do filme, “Afterimage”, já dá a pista. O termo é referência a um dos aspectos da Teoria da Visão elaborada pelo pintor e professor também polonês Wladyslaw Strzeminski, no fim da década de 1950, que afirma que as imagens ficam registradas em nossas retinas mesmo após não estarmos mais olhando para elas. É uma “consciência da visão”, que teria sido primordial para as artes plásticas e por assim dizer para o mundo das imagens como um todo. Não há, portanto, como desaparecer por completo.

Obrigada Wajda por tantos bons momentos.

TRAILER:

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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