Entre o filme mais fofo e o filme mais triste da temporada

DaniPrandi_0188c_500“La La Land” é, certamente, o filme mais fofo da temporada. Já levou muitos prêmios desde que começou sua carreira rumo ao Oscar e deve sair da festa de Hollywood com mais de uma estatueta dourada. Já “Manchester à Beira-Mar”, o filme mais triste da temporada, tem emocionado plateias mundo afora e também é forte concorrente. Ambos, que entram em cartaz nesta semana no circuito nacional, servem para rir, chorar e celebrar a mágica que é conseguir se emocionar no escurinho do cinema.

Assisti aos dois em um curto intervalo de tempo, em sessões para a imprensa, em salas com o ar-condicionado no máximo para driblar o calor sufocante do Rio de Janeiro. Saí de ambos com as mãos geladas, o nariz escorrendo, mas com o ânimo bem diferente.

“Eu tenho uma notícia boa e uma notícia ruim: qual você quer ouvir primeiro?”, foi a questão que ficou me rondando.

Depois de “La La Land” caminhei feliz, tentando me lembrar da música-tema, “City of Stars”, que grudou como há muito tempo não me ocorria. Lembrei das sessões da tarde com Fred Astaire, Ginger Rogers e Gene Kelly, senti saudade de todo aquele jazz, acreditei que o amor pode com todas as coisas, que os filmes musicais, afinal, estão vivos, depois daquela fantástica abertura, de onde, em um engarrafamento, todos deixam seus carros para simplesmente cantar e dançar.

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“La La Land” faz lembrar os filmes com Fred Astaire, Ginger Rogers e Gene Kelly

Não há nada de realmente novo em “La La Land”, o filme de Damien Chazelle, o mesmo do brilhante “Whiplash” (2014). Mas, repleto de citações e reverências tanto ao cinema quanto ao gênero musical, as ideias recicladas nas paisagens manjadas de Los Angeles ganham encanto com o carisma dos protagonistas. Emma Stone é Mia, uma aspirante a atriz que busca seu lugar ao sol em Hollywood, e Ryan Gosling é Sebastian, um pianista de jazz que sonha em ter seu próprio clube. Sem dinheiro, sem perspectivas, eles cantam, dançam, e se apaixonam. A vida, porém, dá muitas voltas e reviravoltas e nem sempre tudo termina como deve ser. A “ousadia” de “La La Land” está no seu desfecho, um verdadeiro achado.

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Damien Chazelle (do brilhante “Whiplash”) fez um musical com final surpreendente

Agora vem “Manchester à Beira-Mar”. No gélido norte de Boston, os flocos de neve deixam a vida ainda mais fria e difícil do que já é. O protagonista Lee Chandler, interpretado com muito talento por Casey Affleck, que levou o Globo de Ouro e é um dos favoritos ao Oscar, esconde uma tragédia familiar que será impossível de ser superada.

Com roteiro e direção de Kenneth Lonergan, o filme, que foi eleito a melhor do ano pelos prestigiados National Board of Review e American Film Institute, fala sobre perdas. É tudo contido, como se fosse preciso guardar as emoções para que haja um mínimo de controle. O protagonista é zelador de um condomínio em Boston que tem que lidar com as doideiras de cada um dos moradores até que recebe um telefonema. Aos poucos, nos detalhes, quem assiste descobre que seu irmão morreu e ele terá que ser, a contragosto, o tutor do seu sobrinho adolescente.

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Em “Manchester à Beira-Mar”, o sobrinho adolescente não consegue se entender com o tio

Ao voltar para sua pequena cidade-natal, o lacônico Lee Chandler terá que enfrentar o que o afastou dali. Reencontra a ex-mulher, vivida com muita emoção por Michelle Williams, e a tragédia que os separou continua sem perdão. Enquanto isso, é inverno, não é possível enterrar o corpo do irmão, que ficará congelado até que a neve derreta. O sobrinho adolescente, cuja mãe sumiu quando o pai descobriu ter uma doença incurável, não consegue se entender com o tio, mas a relação entre eles tem um quê de camaradagem. Os diálogos, quando existem, são brutos, os sentimentos sempre estão bem guardados e esfria mais e mais a cada manhã. No cinema gelado, as cenas invernais arrepiam.

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O ator Casey Affleck é um dos favoritos ao Oscar como Lee Chandler em “Manchester à Beira-Mar”

“Manchester à Beira-Mar” é um filme “adulto”, com drama na medida e alguns poucos momentos com um certo humor, sem soluções inspiradoras ou mensagens de que tudo vai dar certo no final. É um filme que te acompanha, que te fará lembrar de que nem tudo será ou pode ser perdoado. Cada um tem seu fardo para carregar.

Por isso, levanta e anda que a vida lá fora continua; se conseguir, saia cantando e dançando.

TRAILERS

LA LA LAND

 

MANCHESTER À BEIRA-MAR

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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