Cheiro de medo

Andre_PB_400x400Meu tio Nelson gostava muito de cachorros. Ele não chegou a ter mais de vinte como costumava ter o senhor Pedrinho (http://asn.blog.br/2017/03/23/o-que-os-cachorros-de-seu-pedrinho-nos-ensinam-sobre-cooperacao/), mas não me lembro de tê-lo visto um dia sequer sem estar com algum cachorro em seu colo. Sua última companheira foi uma cadelinha chamada Suzi, ela seria uma charmosa salsichinha se seus avós não tivessem sangue de mil vira-latas.

Suzi era quieta e medrosa, acho que foi a cachorra mais covarde que conheci, talvez por causa disso ela nunca se separava do meu tio, que lhe dava muito carinho. Infelizmente, meu tio teve um derrame que o deixou bastante debilitado e ele ficou com muita dificuldade para caminhar e falar. Muitas vezes, eram apenas resmungos intraduzíveis.

Meu tio caminhava se escorando nas paredes, e isso era bastante difícil para ele. Às vezes, ele tinha medo de cair e ficava ali de pé agarrado à parede pedindo por ajuda, e isso o deixava horrorizado.

Era curioso porque toda vez que meu tio tinha essas crises que o deixavam paralisado, Suzi começava a choramingar e a tremer, parecia que a cadelinha estava sentindo na pele o mesmo medo que meu tio sentia.

Pesquisadores da Itália acabam de publicar um trabalho no campo de comportamento animal bastante interessante. Eles provaram que cães conseguem identificar alguns sentimentos dos humanos: medo e felicidade. Será que o cheiro humano, produzido sob situações de medo e felicidade, fornecem algumas informações que podem ser detectadas pelos cães?

Cachorros têm uma extraordinária habilidade para detectar odores (Carlos Ruas, Um sábado qualquer).
Cachorros têm uma extraordinária habilidade para detectar odores (Carlos Ruas, Um sábado qualquer).

Esse trabalho mostrou, pela primeira vez, o envolvimento do sistema de olfato na transferência de emoções, ou em outras palavras, cães podem cheirar suas emoções e adotá-las como se fossem deles próprios.

Humanos e cães coevoluíram lado a lado, e a “hipótese da domesticação” diz que cachorros evoluíram de uma maneira que favoreçam interações com humanos. Foi mostrado que cães podem discriminar entre um sorriso e uma cara fechada de uma pessoa, expressão de felicidade ou de raiva e, assim, cães ajustam seu comportamento de acordo com as emoções expressadas.

Cães também são sensíveis e respondem de acordo com diferenças no conteúdo da voz (gentil ou ríspido), mas isso não é novo e qualquer dono sabe muito bem que seus cães, muitas vezes, aparentam serem até mais inteligentes que eles próprios. A isso a ciência chama de transmissão de informações emocionais interrespécies (espécies diferentes) para que essa convivência seja benéfica para ambos.

Cachorros têm uma extraordinária habilidade para detectar odores e não seria surpresa alguma se seu avançado sistema olfativo pudesse contribuir para essas relações sociais entre cães e homens. Por exemplo, cachorros podem discriminar odores vindos de diferentes partes do corpo de uma mesma pessoa ou diferenciar gêmeos. Uma vez eu li, não me lembro onde, que o sistema olfativo dos cães é tão avançado que eles sabem diferenciar hidrocarbonetos com uma diferença de até um carbono, coisa que mesmo usando equipamentos avançados, ainda temos certas dificuldades.

Para esse estudo, um grupo de voluntários foi dividido de modo que alguns iriam assistir filmes que lhes causariam medo, outros, felicidade, após, o suor desses voluntários foi coletado. Em uma sala, cada cão ficava em contato com um desses cheiros (de medo ou de alegria) juntamente com seu dono e um outro, completamente desconhecido para o cão. Os pesquisadores avaliavam o comportamento dos cães e também seus batimentos cardíacos (medidores cardíacos eram colocados nos cães). Foram utilizados 31 cachorros da raça labrador retriever e 9 da raça golden retrievers. Os cães não conheciam os voluntários e assim o suor e o cheiro vinham de uma pessoa completamente estranha para ele.

Os resultados mostraram que cachorros expostos ao cheiro vindo de pessoas em situação de medo demonstraram sinais de stress, eles também apresentaram aceleração no batimento cardíaco e todos procuravam tranquilidade em seus donos e faziam menos contato social com o estranho na sala. Diante do cheiro de pessoas em situação de alegria, os cães estavam mais calmos, com batimentos cardíacos normais e, além disso, se mostraram mais sociáveis com o desconhecido na sala.

O trabalho mostrou que odores de humanos afetaram o status psicológico dos cães e causaram diferenças de comportamento. Existe um trabalho de 2016 em que o pesquisador propõe que, em situações de medo, a pessoa liberaria algum composto químico que ativaria um instinto predador nos cães, que poderia explicar algumas observações de que cães atacam pessoas quando sabem que elas estão com medo.

Os pesquisadores ainda não descobriram qual seria o composto químico envolvido. Será que produzimos um composto químico quando estamos com medo ou feliz?

Meu trabalho com comunicação da natureza me permite identificar compostos químicos emitidos por animais, plantas e insetos. Recentemente, descobrimos que indivíduos de gado bovino da raça Nelore liberam pela pele uma classe de compostos químicos que poderiam explicar por que eles são tão resistentes a ataques de carrapatos e, assim, podemos propor métodos mais seguros de controle desse parasito.

Não sei se esse é o interesse do grupo Italiano, mas penso que, se houver um composto químico, ele poderia ter diversos fins, adestradores por exemplo poderiam treinar cães de uma maneira mais eficiente. Cães poderiam ser utilizados como poderosos detectores de mentira e conseguir farejar medo vindo de algum acusado em um interrogatório, por exemplo. As possibilidades são enormes e ainda temos muito a aprender com os animais.

 

 

Quem quiser saber mais sobre essa incrível descoberta, o resultado da pesquisa “Interspecies transmission of emotional information via chemosignals: from humans to dogs (Canis lupus familiaris)” pode ser encontrado no site da revista Animal Cognition (em inglês) https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10071-017-1139-x

 

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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