Adivinhe quem manda agora

carlaozinho_0256_400x400O delegado da Infância e Juventude estava realmente de saco cheio daquilo. A cena só variava quanto às identidades informadas pelas vítimas. De resto, elas, as vítimas, pareciam oriundas de uma fornada de clones: sempre garotinhas púberes, — embora exalassem maturidade nas expressões corporais e na linguagem — bonitinhas, cabeleiras exuberantes e de pele muito lívida, meio diáfana mesmo. A maioria era tão mirradinha que parecia até levitar pela sala de depoimentos.

O mais intrigante era que as queixas eram, invariavelmente, as mesmas: todas haviam, em alguma medida, sido molestadas pelos chamados “palhaços assustadores”, a pegadinha de mau gosto do momento nos centros urbanos maiores.

O acúmulo de casos foi tanto que o delegado se viu obrigado a solicitar aos superiores a consultoria de um psicólogo forense gabaritado.

— Então, foi assim, seu delegado: eu tava indo pra minha aula de balé e, em plena manhã, um palhaço horrível me perseguiu com uma marreta enorme, que mesmo podendo ser de borracha, iria marcar minhas preciosas pernocas, tenho certeza. Agora, tenho medo de sair de casa… — relatava a enésima vítima.

— Eu tava no ponto de ônibus pra ir visitar a vovó, na chácara dela, e um bando de palhaços sinistros me perseguiu. Agora, não tenho mais coragem pra levar doces pra vovó… — disse a vítima número enésima+1.

Carrancudo, o psicólogo anotava dados em sua surrada caderneta. E aproveitava os raros momentos vagos pra calcular o tempo que faltava pra sua honrada aposentadoria. Tampouco ele aguentava mais aquela cantinela serial.

Ao fim daquele outro sofrido expediente, o delegado olhou pro psicólogo, em busca de avaliações.

O doutor deu um suspiro cansado e se limitou a repetir o que vinha dizendo sempre:

— Bem, nada de novo, na minha opinião, delega. O que começou como uma simples travessura pra dar sustos em pessoas agora parece estar se tornando algo mais perigoso. Muitos dos engraçadinhos que se vestem de palhaços usam as roupas coloridas que todos nós conhecemos, mas a diferença está no uso de máscaras com expressões de terror. Normalmente, eles perambulam pelas ruas à noite, em parques e locais menos iluminados, de onde aparecem de forma repentina pra assustar pedestres e motoristas.

Crédito: Bruce Szalwinski/creativecommons.org
Crédito: Bruce Szalwinski/creativecommons.org

— Tá, tá… — reagiu o delegado, impaciente — Mas, desculpe se te obrigo a repetir, alguma luz sobre o porquê dessa merda toda?

— É, realmente vou repetir. Essa onda foi observada pela primeira vez na década de 1980, quando estudantes norte-americanos relataram que um palhaço sinistro tentou embarcá-los num furgão. Desde então, a comunidade psicológica enxerga aí um típico comportamento de ostentação; no caso, a exibição com a personificação de uma lenda urbana.

— Eita lendinha persistente, né? — desabafou o policial.

— E como! Chegamos à conclusão de que eles assustam por causa da aparência exagerada e de sua representação maléfica em filmes e outras obras de terror. A maioria das pessoas não têm medo no dia a dia, mas a cara de palhaço passou a fazer parte de uma cultura de sustos. Há o estereótipo do palhaço malvado, reforçado em HQs graças ao Coringa, vilão do Batman, ou do assassino de It, a Coisa, filme do Stephen King. Este chegou a divulgar um comunicado apelando pra que as pessoas não sucumbam ao medo tão facilmente; já te contei isso.

— Pena que isso não impediu que a onda tomasse contornos perigosos! — grunhiu o delegado, relembrando casos trágicos, como o das duas meninas norte-americanas que, em 2014, esfaquearam uma amiga pra demonstrar sua “lealdade” ao personagem fictício de terror Slenderman, que pode estar inspirando os palhaços do mal. O tal “Homem Esguio” se originou como um meme da internet, descrito como um homem magro, anormalmente alto, com uma cabeça branca e inexpressiva e que veste um terno preto. Seria um perseguidor/sequestrador de pessoas, principalmente de crianças. Isso sem contar que nas mídias sociais têm pipocado vídeos de pessoas tentando resolver a questão por conta própria, os chamados “caçadores de palhaços”. Já houve casos de cidadãos disparando fuzis em vias públicas e até um pseudo Batman andou patrulhando ruas pra espancar engraçadinhos.

O velho psicólogo forense nem se incomodou em se manifestar, porém mentalmente concordou: lendas urbanas existem há muito tempo, contudo casos como o dos “palhaços terríveis” ganharam força e poder de disseminação graças à internet. Uma conta no Twitter, intitulada “Avistamento de Palhaços”, por exemplo, já ultrapassa 100 mil seguidores no mundo todo… “Dentro de cinco a seis anos ainda teremos os palhaços horrorosos”, pensou, pesaroso.

Como a situação começava sair do controle, as autoridades mundiais se viram sem opções que não fossem recrudescer as medidas de contenção e punição: acusados eram detidos e, dependendo da avaliação caso a caso, encaminhados pra tratamento psicológico ou mesmo cadeia, se ficasse patente que a motivação era pura sacanagem.

Crédito: Chris Rice/creativecommons.org
Crédito: Chris Rice/creativecommons.org

* * *

Chegou o final de semana e delegado e psicólogo rezaram pra ter um pouco de paz.

No entanto, o que os esperou na segundona os surpreendeu, não necessariamente de forma positiva: as vítimas, agora, eram molequinhos chorões, ranhos banhados por lágrimas e até um bocado de sangue. O primeiro choramingou:

— Eu tava de boas no campinho de futebol e uma fadinha me apareceu. Falou que satisfaria um pedido meu. Pedi a última versão do jogo on-line Minecraf. Ela fez lá sua coisa com a varinha e me entregou um pacote. Abri e o que saiu dele foram ratazanas enormes e esfomeadas, que quase comeram mina cara!

Relato da próxima vítima:

— Cansei de sofrer bullying na escola e desejei ganhar padrinhos mágicos, que nem o desenho da TV. Apareceu uma fada e me entregou um pacote. Abri, e saltaram de dentro clones em miniaturas dos meus perseguidores, que me surraram sem dó!

E por aí foi. No comecinho da noite, o delegado buscou respostas do psicólogo. Este só o fitou de volta e rendeu-se:

— Sei lá, camarada, sei lá…

Crédito: Cate Storymoon/creativecommons.org
Crédito: Cate Storymoon/creativecommons.org

* * *

As moçoilas diabolicamente diáfanas se reuniram na pracinha, com risinhos sacanas crepitando como grilos insanos contra noite escura. A que parecia ser a líder comemorou:

— Aí, meninas, com aqueles boçais presos, internados em manicômios ou com medo demais pra botar os narigões borrachudos fora de casa, as ruas são totalmente nossas!

— Sei não, Aguiin, não quero parecer bundona mais uma vez, mas ainda acho que Titania e Oberon não vão gostar nem um pouco dessas nossas travessuras… — retrucou uma das outras.

— Pois eu digo mais uma vez, Caanegg: fodam-se os monarcas! Chega de seguir regras caretas! Vamos nos divertir mais! — clamou a chamada Aguiin.

* * *

Enquanto uma revoada de garotas encapetadas ocupava cada canto da cidade, o psicólogo largou a calculadora e pensou, com amargura: “Porra, ainda faltam uns bons anos pra minha aposentadoria!…”

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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