A intenção foi boa…

A vibração se alastrou rapidamente por todas as porções de solo úmido do planeta. O engraçado era que a fonte da interferência nunca poderia ser detectada facilmente, face que encontrava-se a milhões de anos-luz. O que não impedia que todos os espécimes de cogumelos da Terra que carregavam os genes dos “percussores” percebessem nitidamente o fenômeno. Estava posta a assembleia.

“Pois é, bravos operativos”, — batucou cosmicamente a suprema e longínqua intervenção — “Já tínhamos previsto o desdobramento, mas a questão agora é que, finalmente, a ‘ficha caiu’ de vez”.

Os “bravos operativos” captaram a mensagem, inscrita com precisão no cerne de seus pés, parcialmente enterrados nos substratos, e que suportam os chapéus. Contudo, sua primeira reação foi um imenso “?”

O vozeirão quase imaterial, porém semi-silencioso, prosseguiu: “Até que enfim, respeitáveis centros de etnobotânica concluíram que o consumo habitual de fungos da nossa linhagem causou um salto evolutivo sem precedentes na espécie humana, propiciando o aumento do cérebro e diferenciando-a de outros grupos de primatas em um prazo muito mais curto do que o verdadeiramente necessário. Compreenderam que a linguagem surgiu daí, além dos primeiros rituais tribais, a intensificação do senso de comunidade e o nascimento das religiões primitivas”.

Crédito: Fabrice Florin/creativecommons.org
Crédito: Fabrice Florin/creativecommons.org

Como nenhum dos bilhões de pequeninos mergulhados nas sombras úmidas do planeta demonstrou capacidade para intervir no bate papo, a distante supremacia fúngica prosseguiu: “Como, ao contrário de vocês, descendentes, nossa longevidade aqui, no Alto Comando, é muito elevada, fomos testemunhas privilegiadas dos primeiros contatos. Ancestrais do ser humano que, amargando um período de escassez dos alimentos já conhecidos e usualmente consumidos, resolveram experimentar uma nova fonte encontrada na floresta: nós — ou os pioneiros. Os experimentadores logo foram tomados por reações inesperadas: sentidos mais aguçados e uma percepção diferente do ambiente ao seu redor. Não demorou pra que conseguissem identificar mais facilmente animais embrenhados entre as plantas, por meio de sons emitidos ou da rápida passagem da potencial presa por seu campo de visão. As caçadas tornaram-se mais efetivas. Os descobridores do novo recurso comunicaram aquilo a outros membros do grupo, que se tornou o mais eficiente nas caçadas e no reconhecimento das características da região onde habitavam, incluindo os perigos. Mais adaptado, aquela comunidade passou a ter maior domínio sobre os recursos disponíveis, enquanto outros grupos de primatas – que não dispunham do fortuito cogumelo – paulatinamente foram perdendo territórios até que, após gerações, só os detentores desse novo conhecimento estavam sobrevivendo e se reproduzindo na região.

“Sim, tudo graças à psilocibina, que carregamos em nosso padrão genético”. — concluiu o Alto Comando Fúngico. Mas complementou: “Certo que alguns experimentadores tiveram mortes horríveis por ingerir, por desconhecimento, primos nossos, autóctones deste planeta, que são fortemente venenosos. Porém, não é mesmo possível fazer omelete de cogumelos sem se intoxicar de quando em vez, né?”

Crédito: Alex Dixon/creativecommons.org
Crédito: Alex Dixon/creativecommons.org

Como nenhum dos ingênuos pequeninos pareceu sacar a piada, o Alto Comando seguiu: “O que queremos lembrar é que nossa missão sagrada, de acelerar a eclosão de vida inteligente em planetas habitáveis parecia estar caminhando a contento. Havíamos nos espraiado pela Terra viajando milhões de anos a bordo de asteroides e meteoros, como o fizemos em relação a incontáveis mundos…”

De algum ponto obscuro do planeta, um prosaico cogumelinho se arriscou:

— Tá, conhecemos a história: apesar de nossa existência efêmera, ela vem embutida em nosso pacote genético. Por que, então, esta comunicação global?

O Alto Comando correspondeu: “Apesar de nossa alta taxa de sucesso em geral, em algumas incursões algo muito errado acaba rolando. No caso da Terra, por exemplo, assim que os benefícios da psilocibina se tornaram plenamente patentes pra uma dada tribo, eis que ela passou a usar a percepção aguçada pra perceber, de longe, grupamentos rivais, e atacá-los com fúria sanguinária. Aí, temos um povo inteligente altamente propenso a guerras, o que se verifica até hoje”.

— Lamentável… — aquiesceu o modesto cogumelinho — Mas, fazer o quê, né?

Crédito: Rachel Elaine/creativecommons.org
Crédito: Rachel Elaine/creativecommons.org

O Alto Comando respondeu rápido, já demonstrando pouca paciência: “Acontece que a convicção de que somos importantes pra evolução humana é firmada justamente quando a humanidade já supera em muito os preconceitos advindos do uso recreativo da psilocibina nas décadas de 60 e 70 do vosso século 20. A substância já é amplamente utilizada na medicina, principalmente contra transtornos mentais. O que podemos esperar a partir disso? Maior astúcia pra guerras! O que vai violentamente contra nossos princípios de intervenção cósmica”.

— Que roubada! — interveio o renitente cogumelinho — Mas insisto: fazer o quê, né?

“Só há uma opção”, decretou dramaticamente o Alto Comando: “vocês, que já têm uma sobrevida tão efêmera, devem parar imediatamente de se reproduzir, até que tenhamos garantido a vossa extinção completa neste planeta”.

— E como controlaremos isso? — questionou o pequenino.

A voz do Alto Comando batucou em definitivo sob a imensidão úmida: “Não se preocupe, meu jovem, garantimos esse recurso genicamente nos espécimes que despachamos universo afora. Sabe cumé, seguro morreu de velho…”

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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