Home office

carlaozinho_0256_400x400A Pensão da Tia Marilda para Rapazes Solteiros era, sem sombra de dúvidas, o fim do poço a que um desempregado crônico e cachaceiro como eu poderia chegar. Ou até não: abusando do restinho do salário-desemprego, até que consegui alugar um quartinho individual, dádiva, visto que naquela altura do campeonato, o que eu menos queria suportar seria dividir o espaço com outros losers iguais ou até piores do que eu.

Historicamente funcionando sem alvará nem anjo da guarda no cinturão urbano em torno da antiga estação rodoviária, a pensão não fazia perguntas demais — e nem nós, os hóspedes, naturalmente.

E tinha outra vantagem: ficava próxima do centro da cidade, o que facilitava muito minha atividade atual como camelô, que abracei havia alguns anos desde que levei um pé na bunda da firma onde trabalhava como almoxarife; a localização também facilitava minhas rotas de fuga dos “rapas” da fiscalização, sem perder muita mercadoria pelo caminho. Certo que era na banda mais podre do centrão velho, porém isso até contava a favor da minha recente “carreira”.

Claro que o cubículo alugado por semana era um nojo absoluto: baratas brotavam alegremente do ralo pouco ralo do banheiro e ratos batucavam nos azulejos decrépitos, como se ritmando aquela opereta da miséria. Outra vantagem em não dividir o quarto: enquanto a maioria dos pensionistas só faltava fazer passeata pra obrigar Dona Marilda a desratizar a pensão, eu, que não suporto massacre de animais, podia conviver na boa com os bichinhos, na verdade fofos camundongos (ah, camundongo também pode transmitir doenças? Então explique minha saúde de ferro! Apesar da minha dieta baseada em salgadinhos de botecos…)

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Crédito: Lwp Kommunikáció/creativecommons.org

* * *

E é justamente a partir dos camundongos que essa história vai finalmente engrenar. Uma das noites monótonas e abafadas da minha vida na pensão foi dramaticamente perturbada por uma cena fantástica: fui acordado por lampejos azuis que riscavam o chão encardido e por um exército de ratinhos que parecia perseguir as manifestações do fenômeno; o mais infernal é que eles portavam, nas patinhas dianteiras, uns aparelhinhos cristalinos, que faziam bip-bip, como se fossem sinalizadores.

Meu salto olímpico/apavorado do sofá-cama esfarrapado não passou despercebido pelos ratinhos exploradores e um deles, que tinha uma bandana multicolorida na cabeça — sinalizando que seria o líder daquela estranha empreitada, achei. — falou, pra me tranquilizar (é, o rato, que não só manuseava aparelho e usava bandana, falou!):

— Sosseg’aí, mortal: estamos apenas mapeando os nós górdios no trecho da Linha de Ley que acabou se imobilizando sob sua moradia. Não vamos demorar…

Assim que terminei de respingar as gotinhas de mijo no moletom surrado, consegui balbuciar:

— Le… lei?! De que raio de lei ‘cê tá falando? E comuéquié que ‘cê fala?

— Não, não, não é “lei” como você pensa, é com “y” no final. — tentou esclarecer o bicho de bandana; e, soltando um cansado suspiro, rendeu-se ao imperativo de que teria que se alongar um pouco mais em troca de sossego pra que seus parças roedores pudessem prosseguir no tal “mapeamento”. Seu tom de voz — ou guincho — agora era professoral:

— Quando foram percebidas pela primeira vez, nos anos 1920, as Linhas de Ley foram interpretadas como alinhamentos entre lugares de interesse geográfico e histórico, como monumentos megalíticos, cumes, cordilheiras e cursos d’água. Teriam sido criadas na Terra pra facilitar o deslocamento através de navegação por linhas de visão, no período Neolítico. Até então, acreditava-se que seriam circunscritas à Grã Bretanha. O termo se impôs porque achavam que as linhas passavam por lugares cujos nomes continham a sílaba “ley”.

Mijei um pouquinho mais no moletom já arruinado, mas consegui apurar os ouvidos. O camundongo sábio continuou:

— Só que nada de circunscrição, e, mais importante: nos anos 1960, associou-se o conceito a teorias esotéricas, tendo como base o conceito chinês do feng shui, método pra conservar as influências positivas presentes num espaço de modo a beneficiar os usuários.

— ?

— Resumindo, as Linhas de Ley são como conduítes pra energia mágica que perpassa todo o planeta. Ah, a propósito, nós falamos porque somos seres mágicos.

— ‘Cê só pode tá de sacanagem…

Percebendo que precisaria dispender mais um tempo pra lidar com aquela interrupção na tarefa, o chefão dos camundongos encantados se rendeu:

— Ok, normalmente os mortais não têm permissão pra esse tipo de acesso, mas vou abrir uma exceção, pelo seu entendimento e, consequentemente, em prol da possibilidade de voltarmos logo à missão.

O ratinho paramentado estalou impossivelmente o polegar e o dedo médio da pata esquerda. O quarto estremeceu como se um terremoto sacudisse o lugar. E aí, eu vi: um dragão furioso e fogoso colidir de frente com um bando de fadinhas com cabeleiras eriçadas; um lobo emboscava por detrás do armário de roupas uma menininha com capuz vermelho; um príncipe com cara de mané beijava uma gatinha inerte, por aí afora.

Eu já não tinha mais o que mijar, por isso, acho que o camundongo esperto teve dó de mim:

— Fechando a questão, gentil mortal, o problema é que vocês, humanos, edificaram tanto e tanto saturaram a superfície do planeta com seus construtos, que acabaram por criar nós górdios nas Linhas de Ley. Por isso, estamos aqui, tentando resolver os casos mais críticos.

— Muito crítico?

— Muito: uma porção enorme de magia fica represada aqui, literalmente batendo cabeças, como você teve a oportunidade de conferir.

— Quer dizer que meu quartinho de pensão virou um point mágico?

— Se eu fosse você, não imprimiria tanto entusiasmo nessa constatação: além de ser algo potencialmente perigoso pra tua dimensão, você jamais conseguiria fazer uso das manifestações; no máximo, seu papel seria o de vítima.

Antes que a autoridade roedora dissesse mais alguma coisa, o diálogo foi interrompido por outro ratinho:

— Licença, mestre…

O mestre atendeu:

— Diga, avaliador sênior.

— Chegamos à conclusão de que este nó górdio é indesatável.

O silêncio dominou a área por bastante tempo. Até que o mestre ruminou:

— Então, só o que nos resta é administrar a crise.

— Mas mestre, — reagiu o avaliador sênior — pra isso, teríamos que tornar este posto permanente e muitas outras anomalias em todo o mundo requerem nossa intervenção…

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Crédito: Darkday/creativecommons.org

Após uma breve pausa, o mestre respondeu:

— Não disse que administraríamos pessoalmente. — e olhou diretamente nos meus olhos: — Amigo, dig’aí, seja o que for que você faça pra defender teu sustento, seria insubstituível? Ainda mais por outra atividade certamente bem melhor remunerada?

Fui franco:

— Não. Sou camelô, e do jeito como a prefeitura tem atiçado a fiscalização, não tem valido a pena. Não.

— Ótimo, gentil mortal. Nós te oferecemos o cargo de relator desta crise.

— Mas, adorável dentucinho, — gaguejei, mesmo bem tentado pela oferta — você mesmo disse que eu jamais poderia fazer uso dessa coisa… mágica!

— E não fará. Tua tarefa será apenas monitorar os fenômenos e nos relatar quando alguma situação ameaçar fugir do controle. Quando necessário, entraremos em ação.

Não demoramos em apertar as mãos; — ou mão e pata — assinei um contrato de trabalho inscrito numa película etérea e até ganhei uma conta de e-mail mágico pros relatos que se fariam necessários.

Tô feliz: descolei o melhor home office do mundo: nunca mais cagaço do “rapa” (até ganhei uns quilinhos extras, graças ao sedentarismo e à boa alimentação propiciada pelo polpudo salário)!

Tô feliz no quartinho assustador e colorido da pensão da inocente e sovina Tia Marilda.

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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