Êita Via Crucis mais arretada, sô!

carlaozinho_0256_400x400Era um grupo de amigos muito unidos e todos cursavam Artes Cênicas na cidade grande. Nos feriados voltavam em peso pra cidadezinha natal e gozavam de um — sejamos honestos — injustificável prestígio por parte dos conterrâneos. Por isso, naquela Semana Santa não foi nada difícil convencer o pároco a deixá-los encenar a Paixão de Cristo pelas ruas do lugarejo e filmar a montagem, pra pontuar como projeto experimental da faculdade.

Descolaram o vestuário, os apetrechos cênicos e até ensaiaram. Na Sexta-Feira da Paixão, horas antes da apresentação, armaram o ritual de “concentração”, como não podia deixar de rolar. Só um deles não pode se “concentrar”, justamente o mais bonitão, de olhos azuis, cabeludo, que faria o papel de Jesus: pai separado, era sua vez de ficar de babá da filhinha. Os outros cheiraram uma duna de pó e mamaram decalitros de uísque.

Já fantasiados, encontraram-se no ponto de partida da Via Sacra. Só Jesus de cara limpa; os outros pareciam incorporados por uma legião de coisas-nada-santas. Jesus teve um arrepiante pressentimento com base na Lei de Murphy: se alguma coisa pudesse dar errado naquela noite, com certeza daria. Pra começar, os caras perderam a chave do quartinho da dispensa da igreja onde tinham guardado os apetrechos. Em cima da hora, o jeito era improvisar: ao invés da cruz de compensado que haviam construído, pegaram emprestada a de madeira maciça que ficava junto ao altar. A coroa de espinhos colhidos na roseira da praça até que era mais realista que a de espuma que usariam inicialmente. As chibatas dos legionários carrascos, que eram pra ser as confeccionadas com tecido bem fininho, foram providenciadas com cintos de couro cortados em tiras. Uma bonitinha do grupo — acho que a Maria Madalena — até teve a estupenda ideia de adornar as tiras com lantejoulas de metal: o brilho na noite sacra a cada chibatada equivaleria a um efeito especial hollywoodiano.

Crédito: PROdavidgolbitz/creativecommons.org
Crédito: PROdavidgolbitz/creativecommons.org

A química entre a adrenalina liberada por aquela produção criativa e os aditivos que borbulhavam nos cérebros dos atores produziu um entusiasmo cênico sem igual. Menos no caso de Jesus, que vivenciou tudo caretaço. A Via Sacra deu a largada com todo o gás. O trajeto do Pretório até o Calvário foi sob intensa pancadaria. O público, que acompanhava a representação das calçadas, estava magnetizado por tanto realismo. E, no topo da escadaria da igreja, onde se dariam as últimas Estações da Paixão, foi um público perplexo que assistiu um Cristo com as costas ensanguentadas atirar no chão a pesada cruz, arrancar a coroa de espinhos com violência e berrar: “Pra mim, chega dessa bosta!”

Silêncio sepulcral. Até que um devoto abanou o chapelão de palha no ar e saudou: “Uai, sô! Esse Jesus é macho memo, né’não?”

As palmas dos fiéis foram dignas de uma cerimônia do Oscar.

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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