O demônio que devasta ao meio-dia e os cogumelos mágicos

Andre_PB_400x400“Não temas a peste que se move sorrateira nas trevas, nem o demônio que devasta ao meio-dia” Salmos 91:6

 

Todos os seres humanos irão experimentar quadros de depressão em algum momento de suas vidas. Para uma pessoa isso será passageiro, mas, para outra, isso se tornará um fardo tão pesado que ela estará disposta a desistir de sua própria vida para se livrar dele.

A depressão é uma doença que afeta mais de 350 milhões de pessoas em todo o mundo. O tratamento, muitas vezes incerto, se baseia em medicamentos e sessões de psicoterapia. Digo incerto, porque cada paciente responde diferentemente a um mesmo medicamento e não existe um tratamento feito especificamente para cada um deles.

A revista científica Neuropsychopharmacology da Nature publicou um trabalho realizado pelo professor de psiquiatria Dr. Carmine Pariante e sua equipe do King’s College mostrando o desenvolvimento de um método que pode ajudar a diagnosticar mais facilmente pessoas com depressão, utilizando analises de sangue do paciente. Pariante acredita que elevados níveis de inflamações estão relacionados a um grande número de desordens, dentre elas, a depressão.

Quase cinquenta por cento dos pacientes diagnosticados com depressão possuem elevados níveis de células imunes e compostos que causam inflamação em seu sangue, e esse é o exato perfil daqueles pacientes que não respondem bem ao tratamento convencional da depressão. O exame de sangue poderia ser usado para saber se a pessoa com sintomas de depressão se encaixaria nesse grupo de pacientes, os quais têm uma superatividade em seu sistema imunológico, e o tratamento, ao invés de medicamentos como o Prozac, que atua na recaptação de serotonina, seria feito para reduzir e tratar as respostas de inflamações do paciente.

Outra pesquisa, também sobre depressão, fez-me lembrar de um show do cantor Ventania, que fui assistir muito tempo atrás. Ventania é um cantor e andarilho que vive em São Tomé das Letras, em Minas Gerais. Ele é um reverenciador, se assim posso dizer, dos chamados cogumelos mágicos. Uma de suas canções mais famosas diz o seguinte: “Sou maluco banguelo, de cabelo amarelo, gosto de cogumelos…”

Os cogumelos, cantados em seus versos, são de uma classe de fungos que produzem o composto químico chamado de psilocibina. Esse composto é o responsável pelas “viagens psicodélicas” que os usuários experimentam ao fazerem uso desses cogumelos.

Importantes pesquisas realizadas em torno do uso dos cogumelos na saúde (Foto Arquivo Pessoal/André Sarria)
Importantes pesquisas realizadas em torno do uso dos cogumelos na saúde (Foto Arquivo Pessoal/André Sarria)

A revista médica The Lancet (a mais conceituada revista médica do mundo) publicou um trabalho de cientistas que estão utilizando a psilocibina para o tratamento de depressão. Todos os voluntários, que fizeram parte desse estudo, apresentaram graus de depressão elevada e nenhum deles obteve sucesso em tratamentos convencionais. Nesse estudo, cada paciente era tratado com a psilocibina e, após, era submetido a duas sessões de psicoterapia. Uma semana após a segunda sessão, todos os voluntários tiveram uma redução dos sintomas característicos de depressão, e cinco deles, após três meses de tratamento, já não mostravam mais nenhum critério clínico para depressão.

Esse composto, inclusive, já foi utilizado em tratamentos de ansiedade, doenças de desordem maníaco depressivo e dependência de álcool e tabaco com resultados bastante satisfatórios.

A psilocibina é um alcaloide indólico parecido com a serotonina e essa foi a primeira vez em que ela foi investigada como método viável, seguro e eficaz em pacientes com graus elevados de depressão.

Esses resultados são bem animadores, mas não são, de maneira nenhuma, uma permissão para que todos saiam por aí nas primeiras horas da manhã, caçando os ditos cogumelos mágicos. Esses cogumelos são bastante tóxicos, e somente um especialista pode identificá-los. A psilocibina, composto presente nesse cogumelos, causa intoxicações seríssimas, levando ao coma e à morte, fato esse que o próprio Ventania cantou em uma de suas músicas “… Mucho loco, locomelo, Cogumelo de Zebu…”

 

 

O título deste texto faz referência ao livro “O demônio do meio-dia, uma anatomia da depressão”, do escritor Andrew Solomon e que, por sua vez, foi inspirado em um trecho dos Salmos da Bíblia.

 

Para saber mais acesse:

The Lancet Psychiatry, http://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(16)30065-7/abstract

Neuropsychopharmacology, doi.org/bfqn

Science signaling http://stke.sciencemag.org/content/10/471/eaaj1549.full

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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3 comentários

  1. Aurora Fávero

    Muito bom e muito interessante,principalmente os versos do cantor Ventania,muitos singelos.
    Deus queira que estas pesquisa com cogumelos possa ajudar, na cura ou senão na melhora da depressão.
    Dá muita pena ver pessoas deprimidas,sem desejos de continuar vivendo,sofrendo por se achar incapaz de superar uma doença ou um estado psicológico. Torço para que dê certo.
    Que bom que temos pessoas,cientistas,que se preocupam. Parabéns,André. Você sempre nos proporcionando novos conhecimentos.

    • Obrigado Aurora, seus comentários são sempre bem vindos e me alegro muito em saber que você gostou deste texto.

  2. Ler artigos com perspectivas tão positivas diante de tanto caos, já colabora com uma esperança a pessoas que tem essa questão tão delicada, que é conviver com a depressão! Parabéns.

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