Entre grilos e estômagos vazios

Andre_PB_400x400Talvez a grande pergunta para as próximas décadas seja: “Como iremos conseguir alimentar tanta gente?”

Estatísticas mostram que, em meados de 2050, a população mundial dará um salto para mais de 10 bilhões de habitantes. Para se ter uma ideia, somente hoje, mais de 800 milhões de pessoas não farão nenhuma refeição por todo o dia, e muitas delas morrerão por conta disso.

A maneira como iremos alimentar tanta gente sem destruir o planeta é um dos maiores desafios da humanidade, pois aquecimento global versus água e temperaturas elevadas; terras agriculturáveis versus desmatamentos; controle de pragas agrícolas versus redução de agroquímicos constituem apenas a ponta de um iceberg feito de 10 bilhões de pessoas.

Produzir alimentos para todos vai exigir muita criatividade e algumas medidas, eu diria, serão impalatáveis desafios. Digo impalatável porque, em algum momento, teremos de mudar nossos costumes e aprender a usar outros tipos de alimentos.

Antes da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, as pessoas ficavam enjoadas só de se imaginarem comendo fígado ou rins de suínos.

Precisamos repensar o que comemos e da forma como estamos comendo.

Capa de livro de receitas à base de insetos: pensando no futuro (Foto André Sarria)
Capa de livro de receitas à base de insetos: pensando no futuro (Foto André Sarria)

Como exemplo disso, somente três espécies de plantas correspondem a mais de 60% de todo alimento consumido no mundo: o trigo, o milho e o arroz, plantas estas que foram domesticadas na aurora do desenvolvimento agrícola entre 9500 a 3500 a.C. e que ainda hoje utilizamos.

Mas, e outras opções de comida? Quem sabe…insetos? Será que eles poderiam se tornar tão comuns em nossas mesas como arroz e feijão? Sei que isso soa totalmente inaceitável para algumas pessoas, mas eles podem se tornar uma alternativa totalmente aceitável na alimentação do futuro.

Quando estive no Quênia, conheci muitas opções de alimentos e maneiras de cultivá-los.

Foi lá, também, que me encontrei com o professor Baldwyn Torto, ele é pesquisador no ICIPE, um importante centro de pesquisa agrícola do Quênia. Dentre as suas linhas de pesquisa, uma delas busca a viabilidade de insetos como alternativa para a alimentação humana.

O Professor Torto tinha publicado, na época, um artigo sobre a utilização de gafanhotos como fontes de esteroides. Nesse trabalho, ele e seus colegas identificaram e quantificaram todos os esteroides presentes no corpo do inseto.

Gafanhotos podem ser utilizados como base para uma espécie de farinha nutricional e ser consumidos pelas pessoas como complemento alimentar e também para reposição hormonal, pois alguns dos esteroides encontrados neles também estão presentes em nosso organismo; vale lembrar que gafanhotos também são fontes de aminoácidos e proteínas que poderiam salvar da inanição milhares de pessoas ao redor do mundo.

Alguns insetos, como cupins e lagartas, são melhores fontes de proteína do que a carne de boi ou de frango. Diante de milhares de pessoas que morrem de fome no mundo, essa pesquisa vem a ser um gatilho na produção de novos alimentos.

Alguns países da Ásia, inclusive, já comercializam muitos produtos à base de insetos.

Uma vez ganhei de presente dois saquinhos de salgadinhos, um era de grilos e outro de pupas desidratadas fritas. Confesso que foi um pouco difícil me imaginar num bar assistindo ao futebol com amigos, tomando cerveja, e tendo como tira-gosto uma tigela cheia de salgadinhos de grilos sabor bacon. Mas, como tudo é questão de costume, você passa a comer sem pensar muito.

Como disse acima, precisamos repensar sobre a maneira de como estamos comendo, pois produzir alimentos para nossa sobrevivência, hoje em dia, está se tornando sinônimo de destruição do planeta.

Esta história toda me fez lembrar de uma passagem de quando eu era criança; eu sempre fui muito enjoado para comer, minha mãe vivia tentando me fazer comer.

Morávamos no sítio e ali nunca faltava quase nada; eram queijos frescos, pães caseiros, bolachinhas, frutas, geleias… mas eu nunca gostava de quase nada daquilo. Queria mesmo era chocolate, refrigerante e coisas mais “comerciais”…

Todo dia era a mesma ladainha, abria a geladeira umas mil vezes e, num gesto repetido, gritava da cozinha: “Mãe o que tem pra comer?” A mãe sempre respondia: “fiz pão hoje cedo e tem goiabada também”. Eu retrucava: “aff isso eu não quero!” e a mãe insistia: “quer o que, então? grilo? coma grilo, estamos cheios deles aqui no sitio”. Mal eu sabia…

 

 

O trabalho com gafanhotos foi publicado na revista Plos One se chama “Potential of the Desert Locust Schistocerca gregaria (Orthoptera: Acrididae) as an Unconventional Source of Dietary and Therapeutic Sterols” ele pode ser encontrado http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0127171

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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