Os vampirim: garotos mais do que perdidos

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Petrônio Prosinha era um caça-talentos e, principalmente, um homem do seu tempo. Anos atrás, buscou um cinema no shopping e até encarou uma sessão dupla da saga blockbuster Crepúsculo só pra se convencer de vez: os vampiros voltaram à moda. Mas atenção: junto à galera teen in (tinim? Hum…). O que significava: fora o velho e embolorado Drácula, com seu capote cheirando a naftalina, e sinal verde para os garotões com barriga de tanquinho e cheios de amor emo pra dar. Com o fenômeno mercadológico bem caracterizado, restava agora a Pretrônio partir pro trabalho de campo. Imagina se aquela cidadona não teria sua parcela de vampirinhos gostosinhos pra ofertar ao sedento altar de Hollywood!

Pelo sempre eficiente — e mais do que barato — boca a boca, fez chegar aos grotões e gretas da metrópole a notícia de que estava selecionando jovens vampiros para “meteórica carreira artística”. Não tardou para que uma ansiosa fila se formasse à porta de seu escritório, montado num dos esqueletos de prédios abandonados pela Encol, no que chamam de “centro expandido” da cidade.

A primeira inspeção visual dos candidatos já lhe colocou pulga atrás da orelha: aquelas saliências nas barrigas não lembravam músculos; seriam… costelas?! E tá certo que, em se tratando de mortos-vivos, é de se esperar alguma palidez discreta e elegante… mas não aquela tez translúcida-arroxeada-gosmenta que nem pastel de anteontem!… Petrônio, contudo, não era de esmorecer ante primeiras impressões. Arregaçou as mangas e abriu as entrevistas.

Crédito: Spilt shire
Crédito: Spilt shire

O candidato número 1 chegou a cair da cadeira de tão bêbado. Petrônio descobriu que o bichinho era tão indolente que só sugava sangue de bebuns devidamente tombados na sarjeta. E o pirralho ainda agravou: “Pra piorar, tio, cismei de chupar um pernilongo de sobremesa e o danado era o da dengue…” O número 2 era bem subnutrido e abriu logo o jogo: “Olha, hematófago, eu já não tenho mais forças pra ser, não. Então virei frugívoro e me viro com a xepa da feira. Se tô numa fase melhorzinha, chego a encarar uma de insetívoro e os feirantes até me dão uns trocados pra acabar com as baratas das bancas.” O número 3 lambia um pirulito que causou estranheza a Petrônio. É que aquele era viciado em latões de lixo e não desprezava um belo e inchado exemplar de… OB.

Em seu desespero, Petrônio pensou alto: “Acho que vou partir pros lobisomens teens…”

Depois que a fila inteira lhe deu dicas para chegar até à matilha de pivetes-viralatas de um beco próximo, o pobre caça-talentos achou que era uma boa hora para encerrar o expediente.

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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