Calma, respira

Andre_PB_400x400A primeira vez que tive contato com uma espécie de técnica de respiração, usada na ioga, foi quando eu tinha mais ou menos oito anos de idade, e a experiência que me levou a aprender essa técnica foi muito traumática, se posso dizer isso.

Uma vez fui com alguns primos na casa da colônia de uma fazenda perto do sítio do meu pai. Já sabíamos, ali, da existência de diversos cachorros nada amigáveis que os moradores da casa mantinham soltos, e um deles, em especial, era o mais temido, que se chamava Capeta e era conhecido por ser o tinhoso em pessoa, mas moleques nunca sabem bem o resultado daquilo em que vão se meter…

Mal me aproximei da casa, o Capeta já levantou as orelhas e saiu em disparada, estava furioso! Era a primeira vez que um demônio em forma de cachorro corria atrás de mim, e antes mesmo que os níveis de serotonina explodissem em meu coração, eu já tinha corrido quase que uns 50 metros. Nunca gritei tanto, e nunca aqueles cambitos de siriema correram tanto na vida.

Dona Iracema (a dona do Capeta) correu para me acudir, e enquanto chutava o bicho para longe, gritava para o Seu Tino que trouxesse um copo de água com açúcar, pelo amor de Deus, para esse infeliz.

Eu, totalmente sem cor, tremendo e respirando na mesma velocidade que meu coração saía pela boca, tomava aquela água doce numa golada só.

(Foto GemmaRay23 Public Domain)
(Foto GemmaRay23 Public Domain)

“Calma”, dizia ela, rindo, “respira devagar, controla o ar que entra, segura e sorta o ar devagar”, “faz isso senão se vai ter um infarto, filho”.

Dona Iracema não sabia que aquilo, que me pedia para fazer, era uma das técnicas de relaxamento, usadas pelos adeptos da ioga e também por profissionais médicos; ela sabia que funcionava e isso já bastava.

Durante os exercícios da ioga pranayama, as pessoas controlam a respiração para chegar a um estado de calma. Prestar atenção na respiração e diminuir a intensidade constitui um componente principal de muitas técnicas de relaxamento, como a meditação.

Mas, por que respirar lentamente parece funcionar diante de uma crise de pânico e ansiedade?

Um tipo especial de neurônio, que faz uma ligação entre a taxa de respiração e o estado de alerta, que foi encontrado, recentemente, em ratos, pode responder a essa pergunta. Os resultados dessa descoberta foram publicados pela revista Science.

Esses neurônios foram apelidados de “neurônios de pranayama”; eles estão localizados numa região cerebral responsável em controlar a respiração e estão conectadas perto de uma área conhecida como responsável pelo estado de atenção. Assim, a respiração e o estado de alerta caminham juntos.

Quando esses neurônios foram desabilitados nos cérebros dos ratos, os animais começaram a respirar mais lentamente, ficaram menos tempo rastreando e cheirando o local e também ficaram mais mansos e mais relaxados, numa espécie de estado zen.

O papel desses neurônios talvez seja garantir que os ratos estejam fisicamente ativos, como, por exemplo, quando estão explorando um local novo, eles respiram rapidamente garantindo um estado de alerta diante de alguma situação de risco.

Se esse mesmo mecanismo for encontrado também em seres humanos, respirar lenta e profundamente pode fazer esses neurônios menos ativos e, em consequência, abaixar os níveis de stress.

Muitos médicos recomendam um controle da respiração para ajudar a combater crises de pânico e ansiedade. A pesquisa sugere que a prática de respiração tem múltiplos benefícios, como levar a uma sensação geral de bem-estar, reduzir a ansiedade e melhorar o sono, sendo que tudo isso vem com um bônus de você não precisar tomar nenhum medicamento.

 

 

Os resultados da pesquisa “Breathing control center neurons that promote arousal in mice” pode ser encontrados no site da Science

http://science.sciencemag.org/content/355/6332/1411. Nesse endereço também é possível encontrar um vídeo onde mostra um rato que teve a remoção desses neurônios, comparado com outro que os tem ainda em uso, sendo que um está bastante calmo enquanto o outro, deveras agitado.

 

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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