Crédito: Pedro Alves/creativecommons.org
Crédito: Pedro Alves/creativecommons.org

O fantasma das redes

carlaozinho_0256_1200x600Quando se fala em “fantasmas”, é automaticamente natural imaginar algo muito, mas muito antigo, né? Pois comigo, não é nada disso: não sou lá muito vetusto — ou vetusta, já que não tenho gênero definido. Teoricamente, estou completando 18 anos. Meio que nasci do ventre titubeante de uma hoje risível plataforma digital chamada Orkut.

Como você já deve ter sacado, meu desenvolvimento é beeem acelerado: tanto, que atingi a…digamos, “adolescência” menos de um mês depois. Numa proposta mais robusta de rede social. E só fiz me encorpar a cada nova inovação no mundo das redes sociais. Sabemos que, atualmente, tais redes são responsáveis por 62% do tráfego na Internet brasileira e são uma das principais formas de representação dos relacionamentos pessoais ou profissionais.

Porém, foi só em 2011 que resolvi partir pro anarquismo, por pura diversão (ou tédio, pode ser; ou, simplesmente porque a função dos fantasmas seja assombrar, né?). Sob o codinome de Karin Catherine Waldegrave, alegadamente canadense, comecei a publicar inúmeros posts no Facebook, que não faziam o menor sentido. O pior é que eu mesma (o) respondia os próprios comentários várias vezes — e isso aconteceu até 700 vezes.

Meu “perfil” jurava que eu teria um PhD pela Universidade de Toronto. E também que havia viajado por diferentes países. Teria aprendido idiomas como o francês, estoniano, letão, inglês, russo, gaulês, latim e alemão. Em resumo, “eu” era bem inteligente.

Comecei a mencionar aleatoriamente o FBI, a CIA, os “homens de preto”, os nazistas e a “elite”. Quem lia aquilo não sabia se eu era esquizofrênica (o) ou se estava postando algum tipo de comunicação de espionagem.

Também não ficou claro se aquelas postagens foram feitas por um ou por várias pessoas acessando a conta: era quase impossível pensar que os parágrafos gigantes publicados vinham de uma pessoa só. Em segundos ou minutos já tinham textões na página. Ou tratava-se de algum tipo de publicação automática, feita por um misterioso codificador?

Além disso, de repente “eu” comecei a responder às minhas próprias mensagens durante 12 horas por dia, fato que chamou a atenção de vários internautas.

Depois de apagar a conta do Facebook, desapareci sem explicação. Alguns acham que que fui colocada (o) em um manicômio e outros pensam que realmente morri.

Crédito: Frankula/creativecommons.org
Crédito: Frankula/creativecommons.org

Algumas pessoas ficaram tão assustadas que criaram uma página no Facebook, buscando informações sobre mim. Descobriram até contas da rede social com postagens semelhantes que acreditam ter sido de Karin. Também pensaram que “ela mudou de conta porque ela estava recebendo muitos pedidos de amizade”…

Ri por um tempão. Ataquei de novo em 2014. Publiquei um vídeo no Youtube: “o mistério do 62.10401554464931 24.459908986464143”.

Até hoje, o vídeo tem feito muitas pessoas questionarem o motivo desse mistério existir. Foi publicado por um usuário conhecido como 626544984949854984858948l1, mas pouco se sabe sobre o vídeo ou sobre a pessoa que o publicou.

O vídeo contém imagens de coisas diversas e sem sentido: vai desde uma floresta assustadora até um rosto se transformando em um crânio. Ocorrem também várias mudanças de som, de uma música a sons quase inaudíveis.

Crédito: Salamanca/creativecommons.org
Crédito: Salamanca/creativecommons.org

Além disso, é cortado por cerca de 30 segundos antes de mostrar sua última imagem: uma estrada escura e solitária. Uns acham que é só uma edição aleatória e outros sentem que o vídeo quer passar uma mensagem mais misteriosa, muito parecida com os enigmas da Cicada 3301. É estranho, porque ao pesquisar o título deste vídeo no Google, encontra-se coordenadas de uma floresta na Finlândia.

* * *

Seguiram-se muitas outras pegadinhas. Claro que me divertia muito, porém aquilo já me entediava. Eu precisava de mais… adrenalina (se é que um ser parido nos turbilhões das redes sociais pode se referir a este hormônio orgânico, indiscriminadamente).

Ainda bem que os sacanas — sejam eles feitos de carne ou de bits — sempre encontram suas oportunidades. Recentemente, recebi uma comunicação interessante, assinada por um tal “Espírito da Deep Web”. Dizia: “Colega, tenho acompanhado tuas estropolias e te garanto que as considero muito criativas. Porém, creio que um pouco mais de agressividade não te faria mal. Por isso, te ofereço uma parceria que, tenho certeza, nos renderão muito divertimento”.

Lógico que topei logo.

Estou agora no aguardo de novas e promissoras propostas que arreganhem ainda mais a cloaca do caos.

Aguardem-nos, pobres almas inocentes!

(Nota da ASN: O crédito da imagem da chamada do post, na plataforma de blogs, é de Pedro Alves/creativecommons.org)

 

 

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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