Minimotores de espermatozoides

Andre_PB_400x400Um dos tratamentos contra o câncer envolve a quimioterapia, um coquetel de medicamentos que é destinado a matar células de rápido crescimento. O problema é que as drogas utilizadas ali atacam além das células tumorais também as células saudáveis e, por conta disso, os efeitos adversos da quimioterapia são terríveis.

Um tratamento perfeito seria fazer com que os medicamentos utilizados na quimioterapia atacassem somente as células cancerígenas e deixassem de lado as células boas. O ideal seria uma maneira que levasse o medicamento diretamente para a causa da doença, como pequenos entregadores biológicos treinados para atingir somente o câncer. Para deixar uma imagem mais clara, imaginem mototaxistas levando uma encomenda ao destino; eles vão cruzando os carros, evitando tráfego, buscando atalhos e, ao final, a entrega da encomenda no endereço correto. Mas, como encontrar nano entregadores capazes de fazer esse serviço?

Que tal espermatozoides?

Entregadores mais eficientes (Ffoto: Duncan Watson “spermbike1” creativecommons)
Entregadores mais eficientes (Foto: Duncan Watson “spermbike1” creativecommons)

Pesquisadores alemães desenvolveram um método que utiliza espermatozoides para fazer o transporte de medicamentos diretamente para dentro de células tumorais. O esperma possui motilidade, isso é, ele se move, e os especialistas definem esse movimento em dois tipos: motilidade progressiva pela qual os espermatozoides se movem em sentido direcional (deslocam de um ponto A para um ponto B) e motilidade não progressiva com a qual eles, apesar de moverem a cauda, não se deslocam, patinam, mas não saem do lugar ou giram em círculos. Todos os homens possuem esses tipos e somente os que possuem motilidade progressiva conseguem atingir o óvulo e fecundá-lo.

Pensando nesse movimento, os cientistas encapsularam um medicamento dentro do núcleo do esperma e, para ajudar na viagem de entrega, eles desenvolveram uma espécie de armadura, Essa armadura é guiada via magnetismo, assim, o campo magnético guia as armaduras com os espermatozoides e, quando eles se aproximam do tumor, a armadura se abre liberando o esperma que atinge a parede do tumor permitindo-o nadar lá para dentro do tumor e liberar o fármaco. A ideia é brilhante!

Os testes foram feitos utilizando o cloridrato de doxorrubicina, um dos medicamentos utilizados na quimioterapia e, para avaliar a eficácia da entrega, foram utilizadas células de câncer cervical. Foi possível ver que os entregadores fizeram um bom serviço a ponto de se observar uma mortalidade, in vitro, de mais de 80% de células tumorais em apenas três dias.

Representação de uma célula de espermatozoide atingindo o tumor (Foto: autores do trabalho)
Representação de uma célula de espermatozoide atingindo o tumor (Foto: autores do trabalho)

A vantagem de se utilizar espermatozoides para carrear medicamentos é que eles são naturalmente otimizados para nadar no sistema reprodutivo feminino, pois é isso que eles fazem, o que os torna armas poderosíssimas para o tratamento do câncer cervical e outras doenças ginecológicas. Uma outra vantagem é que os espermatozoides são excelentes candidatos para operar em ambientes fisiológicos, pois não expressam proteínas patogênicas nem proliferam para formar colônias indesejáveis, ao contrário de outras células ou microorganismos. Esse micromotor de espermatozoide mostrou ter grande potencial de aplicação em cuidados ginecológicos, tratamento ou detecção de câncer ou outras doenças no sistema reprodutivo feminino.

 

Quem quiser saber mais sobre este trabalho “Sperm-Hybrid Micromotor for Targeted Drug Delivery” ele foi publicado pela revista ACS Nano e pode ser encontrado no endereçhttp://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/acsnano.7b06398

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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