Sonâmbulo

Cacalo FernandesQuincas resolveu mais uma vez pegar as melancias que estavam no quintal do vizinho. Não era roubo. Era tomar posse das melancias que estavam ali tristonhas, esquecidas. Na verdade era uma caridade.

Foi devagarzinho. Subia o muro, pegava uma, dava um jeito de subir pelo muro com a melancia, depositava na beira da sarjeta. Depois era outra, e seguia o mesmo ritual. Depois a última. Sentou-se na beira da sarjeta da rua de terra.  Olhou para as melancias. E babou.

Abriu a primeira e começou a devorá-la. Logo conseguiu comê-la e só examinou a casca que sobrara. Até os caroços estavam em sua barriga. Olhou sedento as outras duas. Comeu a segunda. Olhou a terceira. Olhou de lado. Ninguém o via.  Comeu-a de cabo a rabo.

Cacalo_melancia

Não havia sobrado nada. Abaixou o calção, sem levantar da sarjeta, e mijou. Durou muito tempo. “Eta mijada boa”!. E deitou-se. Foi a farra da manhã. Sonecou enquanto cavalos e alguns burros passavam levantando poeira. Ele nem viu.

O tempo passou por alguns anos, e o Quincas resolveu casar-se. Mas com quem? Deixou de comer as três melancias como fizera até agora. Só duas. Era o caminho. “Com essa barriga nem dá para abraçar a moça”, ironizava a mãe.

Cacalo_Gordo 2

Bem, enfim Quincas arranjou uma noiva. Também gorda. Bem gorducha. E o tempo engoliu novos anos. Eles se olhavam muito. Bem nos olhos. E diziam um pro outro: “Eu te amo como ninguém conseguiu amar ninguém”. Depois se beijavam na boca. De um jeito bem assanhado. Paravam logo. Vai que a mãe dele passasse perto!

Enquanto fazia móveis de madeira – era seu trabalho-, escutava muito rádio. Um dia ouviu bem nitidamente: “Nasceu uma melancia quadrada. E a melancia de forma arredondada foi pro beleléu”. E Quincas gritou pra mulher comprar o jornal. “É urgente”.

Cacalo_melancia quadrada

O jornal dizia numa manchete enorme. “A melancia arredondada sumiu do mapa. Agora não passa de um quadrilátero”. Quincas, enlouquecido, queimou o jornal e disse. “Será que a melancia foi pra lua?”.

Saiu pra rua. Sentou na sarjeta. “Eta vida maluca”! Deitou e resolveu dormir ali pela última vez.

Pelo menos, é o que ele achava.

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