Com afeto, “Me Chame pelo seu Nome” vai muito além do rótulo filme gay

DaniPrandi_0188c_500Quando Oliver (Armie Hammer) propõe ao jovem Elio (Timothée Chalamet, o ator-sensação da temporada) que ele o chame pelo seu nome, os dois se tornam um. A brincadeira continua com jogos de sedução e é tempo de iniciar-se na aventura do amor e do sexo. O recém-chegado norte-americano, que desembarca para uma temporada na Itália na casa da família do talentoso adolescente, que compõe ao piano e passa o tempo lendo livros, inspira a descobertas. “Me Chame pelo seu Nome”, indicado a quatro categorias do Oscar 2018, é um filme sobre o despertar do sexo homossexual, mas é mais, pois carrega razão e sensibilidade.
um filme sobre o despertar do sexo homossexual, mas é muito mais (Foto Divulgação)
um filme sobre o despertar do sexo homossexual, mas é muito mais (Foto Divulgação)

 

Indicado nas categorias melhor filme, ator (Timothée Chalamet), roteiro adaptado e canção original (“The Mystery of Love”, de Sufjan Stevens, cuja “Visions of Gideon” também está na trilha), “Me Chame pelo seu Nome” poderia ser simplesmente um filme gay, mas consegue se destacar do rótulo ao ir além do que se espera sobre o tema com sutileza, bom elenco e a elegância de um dos melhores diretores italianos dos nossos tempos, Luca Guadagnino, o mesmo dos belos e dramáticos “Um Sonho de Amor” (2009) e “Um Mergulho no Passado” (2015), ambos estrelados por Tilda Swinton. Guadagnino, aliás, esteve no Brasil, no Festival do Rio do ano passado, em outubro, para a apresentação do filme, que colecionou elogios em sua passagem pelos festivais de Sundance, Berlim e San Sebastián.
A produção, vamos concordar, ocupa a vaga “independente” do Oscar, que no ano anterior pertenceu à “Moonlight”, que acabou levando a categoria melhor filme depois de todo aquele papelão que nem vale a pena lembrar, quando anunciaram o vencedor errado. A torcida por aqui, aliás, promete ser forte já que um dos produtores é o brasileiro Rodrigo Teixeira. O roteiro, vale destacar, é do celebrado James Ivory, feito a partir do livro homônimo de André Aciman, de 2007, e que chega agora ao Brasil na carona do filme.
Um dos produtores é o brasileiro Rodrigo Teixeira (Foto Divulgação)
Um dos produtores é o brasileiro Rodrigo Teixeira (Foto Divulgação)

O filme se passa nos anos 1980 e o jovem Elio vive com os pais intelectuais em uma bela casa em uma villa na Lombardia. Toda aquela luz inebriante da Itália enche a tela e nos mostra corpos desnudos, jovens e com toda a vida pela frente, o calor, os pomares cheios de frutas frescas e maduras (e há a já famosa cena da fruta, usada para aliviar o desejo), as refeições fartas e o entra e sai de convidados. O professor universitário Perlman (Michael Stuhlbarg) e a esposa (Amira Casar) vivem em um ambiente multicultural, onde se falam várias línguas, e costumam receber um aluno a cada verão.

O norte-americano Oliver é o convidado da vez e, carregado de clichês, o personagem passa a ocupar o quarto de Elio e leva aquele “american way of life” para o ambiente. O adolescente e o convidado passam a se observar mutuamente e o conflito está no ar, já que há uma grande diferença nas histórias de um e de outro e, é claro, na consciência dos riscos que uma eventual “loucura” poderia acarretar. E lá vão eles, de bicicleta, desvendar caminhos em memoráveis sequências ao ar livre.
Timothee Chalamet, indicado a Melhor Ator no Oscar (Foto Divulgação)
Timothee Chalamet, indicado a Melhor Ator no Oscar (Foto Divulgação)
O filme promove uma viagem ao um passado recente (quando não havia smartphones!) e os personagens se saciam com livros, ou saem para nadar no lago, ou para dançar, ou para descobrir o amor. Tudo isso embalado em uma trilha chique, com direito a Ryuichi Sakamoto, sem falar do momento em que Elio interpreta uma cantata de Bach em três versões. É um filme que foge do esperado, que encanta sem fazer muito esforço, e quando termina dá um aperto no coração.
O professor vivido por Michael Stuhlbarg, aliás, tem uma das melhores cenas, com uma sequência de frases impactantes e que deixam o nó no estômago do final ainda mais apertado. Uma “loucura de verão” pode ser impactante na vida de uma pessoa, mas não vivê-la também, ensina.
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Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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