
O sombrio, aliás, vem do passado, mais precisamente os anos 1960, com toda aquela paranoia de Guerra Fria, dos russos que querem chegar primeiro na Lua e dos vilões que perdem dedos, mas nunca a vontade de matar ao estilo dos filmes do 007. “A Forma da Água” nasceu da mente do mexicano Guillermo Del Toro, que já andou pelo universo fantástico em “O Labirito do Fauno (de 2006), um fã de filmes de monstro que se inspirou em “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), que assistiu quando tinha sete anos, para criar sua criatura. E o monstro vem da exótica Amazônia, podem acreditar (!).

“A Forma da Água” chamou atenção no Festival de Veneza do ano passado, quando levou o prêmio principal, o Leão de Ouro. De lá pra cá, passou por outros festivais e foi ganhando espaço na corrida ao Oscar. O filme acabou liderando as indicações e concorre a melhor filme, diretor, fotografia, montagem, trilha sonora, edição de som, mixagem de som, atriz (Sally Hawkins), atriz coadjuvante (Octavia Spencer), ator coadjuvante (Richard Jenkins), figurino, roteiro original e desenho de produção.
Para ficar só na história, o filme começa com o foco na faxineira Elisa Esposito (Sally Hawkins, em momento de graça), que é orfã e foi resgatada bebê de um afogamento. Ela é muda e convive a maior parte do tempo com seu vizinho, Giles (Richard Jenkins, ótimo), e a colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer, em mais uma atuação digna do Oscar), com a qual divide o trabalho de limpeza em um laboratório ultrassesecreto, dirigido pelo cientista Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg, que nesta temporada está presente em três dos longas indicados ao Oscar de melhor filme, pois além de “A Forma da Água” atua também em “Me Chame Pelo Seu Nome” e “The Post”).

Um dia, o laboratório recebe um humanoide anfíbio, capturado pelo malévolo coronel Richard Strickland (Michael Shannon, impagável no papel). Um improvável romance entre a faxineira que não fala e o monstro que só se comunica como um monstro mesmo, aos rugidos, ambos assediados e subjugados pelo vilão, que fica cada vez mais mau, rende um roteiro com um pé no conto de fadas, mas está bem longe de histórias coincidentes, como por exemplo “A Bela e a Fera”.
Del Toro remexe os clichês, mostra o que não se espera e se ampara na absoluta pureza de Elisa para seguir adiante enquanto desfila diálogos impiedosos entre os vilões. Sim, porque há mais vilões, os espiões russos, que rivalizam com os militares do governo a parcela de vilanias nessa jornada em busca da liberdade e do amor sobre todas as coisas. A trilha sonora é absolutamente nostálgica, com direito até a Carmem Miranda, e a fotografia em tons de verde e azul do expert Dan Laustsen é um grande acerto para reforçar o clima de fantasia. E quem quiser acreditar, que acredite.

“A Forma da Água” é a boa surpresa da temporada do Oscar e combina com o desejo de escapismo que tem tomado corações e mentes nesses tempos bipolares.
Uma dica: em São Paulo, o recém-inaugurado Instituto Moreira Salles na Avenida Paulista está exibindo “O Monstro da Lagoa Negra” de 1954 em sessão dupla com “A Forma da Água” durante o mês de fevereiro (veja em https://ims.com.br/).
TRAILER
Daniela Prandi, thanks for the article post.Really thank you! Great.
Discordo que o filme possa ser nivelado como sessão da tarde. É riquíssimo em nos apontar detalhes, sutilezas nos diálogos das personagens que nos levam a refletir sobre a mulher, o negro, o gay, o mudo, o velho, o ultrapassado, enfim também sobre uma forma de ser vivo diferente do humano mas que tem tanta emoção, sentimento, amor quanto boa parte de nós é capaz de sentir, viver, dar, receber. E o “monstro” não é ele, e sim um humano. O vilão é o monstro, incapaz de ter empatia, quer impor seu poder, quer ser mais que outro seja ele a forma da água, ou a mulher, ou os filhos. Que sejam todos submissos! Será que é isso que queremos na nossa sociedade? É preciso que o ser humano evolua! Mude! Melhore! Tenha um “upgrade”. Só tá tudo igual tal qual a época do filme. As mudanças vêm lentamente.
Ótimas ponderações! Não é que o filme seja nivelado como sessão da tarde, mas sim que ele pode ser visto como sessão da tarde para quem preferir. Mas concordo que há muito mais, muitas e muitas camadas no roteiro, sim é um filme realmente especial. Obrigada pelo comentário.