Sabe aquela história “eu mesmo invento, depois fico com medo”? Bem, nem tudo é invenção, mas que fiquei com medo, fiquei. E o episódio me ensinou que mentir, mesmo que um pouquinho, na nossa profissão, não só é pouco ético, como consegue até ser perigoso. O povo da Vila Costa e Silva ligava sem parar na redação do saudoso Diário do Povo, denunciando um cara que aprontava todas, de roubo de carros a cantadas em mulheres alheias.
Detalhe: montado num garboso cavalo branco.
Partimos pro bairro. Colhemos pilhas de relatos escabrosos da comunidade. Só que nada do malfeitor. Na delegacia, monte de BOs… de “autoria desconhecida”. De volta à redação, premido pelo dead line, não vi outra alternativa a não ser tascar: “Cavaleiro da Costa e Silva aterroriza o bairro”. Ora, não era de tudo ficcional: o Cavaleiro da Costa e Silva indubitavelmente existia; apenas não conseguimos encontrá-lo naquele “esforço de reportagem”.

Madrugadas depois, estava eu no boteco, sozinho numa mesa de fundo. A luz se eclipsou por um sujeito enorme, bigodão hirsuto. Vozeirão: “Peguei teu papo com o garçom, ouvi que tu é jornalista e ele te chamou pelo nome do repórter que escreveu sobre o ‘Cavaleiro da Costa e Silva’…”
E eu, sabendo que ia me arrepender: “E você, quem é?” Vozeirão ao quadrado: “O Cavaleiro da Costa e Silva!” Comecei a articular: “Olha…”
Interrupção: “Fica frio. Gostei da matéria. Meu ‘cartaz’ na ‘boca’ tá feito! Brigadão, hein?”
Antes de sair, o inesperado caubói de pós-meia noite fez questão de deixar uma cerveja paga. Minha goela trêmula agradeceu.
Não, nem vi se ele foi embora a cavalo.