As bolas coloridas diziam tudo

CacaloFernandes_0179_400x400Eu conhecia Dona Nena só de vista. Ela era a dona do circo. De origem italiana, ela não era muito boa de papo, o que era estranho. Não sei o momento em que ela falava. Mas Dona Nena devia exprimir-se em algum momento, tenho certeza.

Mas eu conhecia o Bigorrilho, e isso me bastava. Ele é quem cuidava de Fátima, aquela elefanta fantástica que ficava no campo de futebol do Libertad, atrás de minha casa. E ele me permitia observar os animais do circo um pouco mais cara a cara. E Fátima, acredito, ficara minha grande amiga por isso. Amicíssima.

Do meu quarto, aos fundos do campo, a primeira coisa que fazia no dia era escancarar a janela e olhar a Fátima. Ela era linda mesmo. Além disso, pela primeira vez, eu me senti mais importante que meus primos da Capital, que sabiam tudo dos livros e pouco da vida. Com intimidade, entre quem passasse perto, só eu conhecia. E bastante intimidade. Podia perguntar qualquer coisa sobre elefante. Eu respondia de pronto.

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À noite, eu me via enxaguando aquela tromba enorme, que para mim ficara pequena, e conversar sobre os mais diferentes assuntos. Eu conversava com Fátima sobre o leão, e ela me contava tudo sobre ele. O mesmo acontecia com o tigre, os macacos, que ela dizia que eram safados, e a girafa, aquela pescoçuda. Assim fiquei conhecendo o circo em detalhes jamais contados por alguém tão nobre.

Mas foi um dos meus primos que falou que os elefantes eram herbívoros, que comiam ervas, gramíneas, frutas e folhas de árvores. Isso eu sabia, mais ou menos. E os herbívoros, segundo ele, fazem a refecção, ou seja, comem a própria bosta. E as fezes passam outra vez pela sua via alimentar. Bem, quando a elefanta fica grandona, come de 70 a 150 quilos de alimentos por dia. E você acha que elefante tem predador? É bom nem pensar.

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Foi com os macacos que descobri que aquele universo, pelas primeiras observações,  era mais interessante. E comecei a distribuir bananas para os bichos. Só ao me verem, começavam a pular na grade da jaula onde estavam presos. Pura alegria. Mas, em certo dia, passaram a correr e gritar como loucos quando comeram as bananas preparadas por mim. Eles acabavam de conhecer o sabor da pimenta.

Foi aí que se revelou que a vida não é simples. Depois a coisa se acalmou. Mas me dera trabalho. Foi muita paciência para mostrar que tinha posto pimenta na banana só por brincadeirinha. Tirava a casca da banana, abria, comia. E eles continuaram a me olhar de soslaio. Até que um deles arriscou; depois o segundo, o terceiro, o quarto… Terminou assim a crença de que o mundo era feito por gente má. Valeu a insistência. Todos voltaram a comer banana.

Um dia Fátima sumiu. Foi de repente. Dona Nena não acreditava: como uma elefanta pode assim desaparecer? E logo, como fogo, a notícia se espalhou pelo bairro. A população só espiava, apesar de que se Fátima quisesse derrubava tudo que encontrasse pela frente. E Dona Nena assumiu a italiana escondida e ordenou:

Bigorrilho! Traga a elefanta de volta.

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Para um sujeito baixo e magro, como Bigorrilho, foi só guardar o boné e correr. Ele resolveu vasculhar o bairro. Bastava procurar de forma certa: ir pelas quadras ao redor da casa. Era só perguntar de um bicho grandão, de tromba, e que todo mundo saberia. Era fácil.

Mas não foi assim tão fácil. Imagine como estavam as casas por onde Fátima tinha passado. Não havia barulho nenhum, ninguém falava nada. Nem os cachorros latiam. Não adiantava tocar a campainha, bater palmas, gritar. Nada. Parecia que estava todo mundo debaixo da cama. Até o armazém da esquina, que vendia um baita pão com mortadela e goiabada cascão, fechara as portas. Não ia ser a tranquilidade que Bigorilho tinha imaginado.

Já no primeiro quarteirão, na parte de cima, escutou as primeiras notícias sobre a elefanta passadas por um vidro entreaberto da casa de um vizinho. O informante falava baixinho. A elefanta virara na primeira esquina, segundo ele, e surpreendentemente sumiu do mapa.

Depois de investigar bem, ele notou, na casa da esquina, que bolas de sabão subiam pelos ares e davam novo tom à paisagem. Quando as bolas se acalmaram de tamanho, ele percebeu que Fátima estava por trás daquilo.  Enfim achou a Fátima.

A casa estava sozinha quando ela chegou. E foi direto atrás de água. Foi aí que descobriu o tanque de lavar roupa do lado de fora da casa. O tanque estava repleto de água. Assim que foi dar a primeira golada, uma caixa de sabão caiu no tanque, fruto de uma tromba desacertada. Aí que descobriu as bolas de sabão. Fez a vida. Eram bolas de sabão de todas as cores voando pelos ares, quando Bigorrilho chegou. E ele foi duro:

‑ Fátima, chega de bagunça. Dona Nena está chamando.

E partiu puxando Fátima pela tromba. Ela foi na hora, muito obediente a elefanta.

Sobre Cacalo Fernandes

Ser paulistano foi o início de uma história de quem certo dia decidiu ser um escrevinhador. Mas quando a calça deixou de ser curta, lá no início, ajudou a construir esse lado que um dia pareceu esquisito. E hoje acho que não poderia ser outro.

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