Hora do corre-corre

carlaozinho_0256_400x400O Ancião sabia que a videoconferência não tardaria a se completar na tela do computador: afinal, os convocados eram, na maioria, jovens tecnologicamente bem preparados naquela nação insular do Oceano Índico privilegiada com um Índice de Desenvolvimento Humano elevado, o 63º do mundo. E com a vantagem de se abrigar sob o regime de república parlamentarista, nada afeita a monitorar a internet.

Assim que o mosaico multifacetado se estabilizou no monitor, ele saudou:

— Prazer em me comunicar com vocês, guardiões!

Após um breve retorno de burburinhos em resposta, o Ancião tratou de ir logo ao ponto:

— Saibam que a presente convocação emergencial se justifica realmente por uma emergência.

E, antes que alguma intervenção se consolidasse por parte dos mosaicados, ele transmitiu a notícia veiculada pela revista britânica Nature Communications: “Restos de antigo continente são encontrados nas Ilhas Maurício”. O texto começava: “Pesquisadores descobriram no Oceano Índico, sob as águas das Ilhas Maurício, rastros de um antigo continente chamado Gondwana, que se desintegrou há 200 milhões de anos.”

Crédito: Iqbal Osman/creativecommons.org
Crédito: Iqbal Osman/creativecommons.org

Um dos guardiões seniores não se conteve:

— Como assim? Os últimos vestígios estão soterrados em níveis inalcançáveis… além disso, nossos registros digitais são criptografados a um nível de sofisticação que nenhuma tecnologia atual é capaz de fazer frente!

O ancião aprofundou:

— Vamos por partes. A descoberta foi feita depois que zircones, minerais de 3 bilhões de anos atrás, foram encontrados na superfície da ilha. Os especialistas constataram que não era normal encontrar partes deste antigo mineral, que é produzido principalmente em rochas continentais, na superfície de uma ilha muito mais jovem, de 9 milhões de anos. Concluíram então que eram partes de um pedaço de crosta que posteriormente foi coberto por lava durante erupções vulcânicas na ilha.

Aproveitando logo o silêncio dos videoconferencistas, ele acrescentou:

— Quanto aos registros digitais, não se preocupem: apesar de serem realmente hiper-seguros, já estamos nos encarregando de deletá-los em definitivo, por precaução.

Crédito: Mike Linksvayer/creativecommons.org
Crédito: Mike Linksvayer/creativecommons.org

E foi ao ponto principal:

— O que mais nos preocupa são os vestígios físicos. Os estudos, até agora, sustentam que os restos de zircon são muito antigos para pertencer às Ilhas Maurício. Eles estão convencidos de que se trata uma pequena parte de um antigo continente que se rompeu da Ilha de Madagascar, quando África, Índia, Austrália e Antártida se separaram e formaram o Oceano Índico. O fato de terem encontrado zircones dessa idade nas Ilhas Maurício prova que existem materiais da crosta terrestre muito mais antigos, que só podiam ter origem continental. Imaginam que a ruptura não envolveu uma simples divisão do supercontinente Gondwana, mas uma fragmentação complexa que aconteceu com pedaços de crosta continental de tamanhos variados deixados à deriva dentro da bacia do Oceano Índico em evolução.

E concluiu, com dramaticidade:

— Depois desta notícia, certamente vai rolar uma febre de escavações e mergulhos exploratórios. Assim, a missão imediata de vocês é chegar antes aos pontos mais críticos e limpar as áreas. Sirvam-se do mapa anexados aos Protocolos Arcaicos.

 

* * *

Quando os guardiões deixaram a videoconferência pra cumprir a ordem prioritária, o Ancião não conseguiu evitar revisar mentalmente o histórico contido nos Protocolos Arcaicos.

A arca com os pioneiros desceu naquele paraíso de flora e fauna exuberante. Com muitos milhões de anos separando o planeta do surgimento de vida inteligente, tinham o cenário ideal pra edificar uma colônia alegre e eficiente. Colocaram mãos à obra imediatamente, e em pouco tempo já tinham dúzias de cidades-estado plenamente autossustentáveis e tecnologicamente avançadas.

Crédito: James St. John/creativecommons.org
Crédito: James St. John/creativecommons.org

No entanto, não demorou pra que rusgas entre facções — justamente a praga que dizimara seu mundo original e da qual os pioneiros buscavam fugir, ao decidirem fundar a colônia naquele jovem planeta — descambassem pra violência física, começando por guerrilhas territoriais e culminando em severos embates nucleares. Que acabaram por soçobrar o continente que os acolhera.

Merda feita, os sobreviventes de todas as facções conseguiram finalmente firmar um armistício. Toparam coexistir em paz e soterrar os fatos que denunciavam a vergonhosa queda do paraíso. No entanto, decidiram, porque era justo, que o registro da desgraceira toda fosse mantido. Foi assim que as subsequentes gerações dos pioneiros tinham conhecimento do tal protocolo.

Na operação de ocultação, os pioneiros destruíram os artefatos mais letais, porém decidiram manter aparatos e projetos básicos de tecnologia que poderiam ser ressuscitados no futuro, quando os descendentes tivessem a convicção de que só seriam empregados em fins pacíficos. Era esse o tesouro que repousava sob as Ilhas Maurício, agora sob risco de ser descoberto pelos curiosos pesquisadores. “É, os guardiões têm um baita trabalho pela frente!”, pensou o Ancião.

 

 

 

 

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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