Porque me desencantei com a morte

carlaozinho_0256_400x400(Em memória do saudoso Caio Tidei)

Deixei o funeral de um amigo. No caminho, previa o que ia acontecer. Já contei aqui que na cidade alternativa que habitei um dia tinha sempre um poeta cego plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava. Até hoje ele adivinha os meus passos e se teleporta para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma suja de tempo. O daquele dia se chamava Porque me desencantei com a morte. Era assim:

eu me criei no tempo dos enterros desfilantes

matronas crocodilando lágrimas de vela

deveras matraqueavam farfalhantes negras loucas

vestes de todos os meses e praças destes feitos

desta feita sem tragedianacional manchetável

só aceitável naturação de morte unitária por vez

vez que a família arrimada a salvo razoável

véu na cara por tudo isso sem constrição possível só

podia mesmo chorrir que é um jeito ameno

ao menos de ver a morte amadurecer e cair

 

caiam àquele tempo portas comerciais hipocrizando lucros

seguros de bolsos cujas mãos pinguças amassavam chapéus

malabarisantes transparecendo mataréus de ansiedade do após dever

de ver des-secadas as gargantas cristãs redimidas

 

midas tocava o pau contabilizando punhetas

que às vezes até incompletas serviam se iam

para o saldo machificante da nossa compleição

28 imagem 2 Vincent van der Heijden
Crédito: Vincent van der Heijden/creativecommons.org

PORQUE

eu me criei no tempo dos valores confortantos

que tínhamos mais que punhacelerar maturinós já que

queríamos mortes como aquelas calmatizadas e cidadaneáveis

vez de sermos enxergalagrimados no picaderreiro magistral

 

não prevíamos que as mortes hoje seriam surtos

curtos necroterizados às escondidas do espetáculo

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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