O estranho caso dos pênis que desapareceram

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O fato aconteceu em 1984 em Hainan, uma cidade no sul da China. Milhares de homens e meninos acreditaram que seus pênis estavam sumindo. Numa manhã qualquer, quando eles acordaram, estavam todos extremamente aterrorizados e em estado de pânico. Muitos estavam convictos de que seus pênis estavam encolhendo e desaparecendo. Amigos (os que ainda não estavam “infectados”) vieram em socorro; seus pintos eram então apertados, esticados e puxados para impedir que eles desaparecessem dentro de suas barrigas; amigos batiam neles com chinelos ou pedaços de madeira com a intenção de espantar o espírito maligno que estava roubando seus pintos. Muitos acreditavam que o espírito ladrão chegara pela noite quando o frio tomou conta da cidade.

O episódio narrado diz respeito a uma doença psiquiátrica incomum, chamada de koro, ou como descrito pelo Manual de Diagnose e Estatística de Doenças Mentais, como a síndrome do pênis retraído: “Koro, provavelmente, vindo da Malásia, se refere a um episódio de ansiedade repentina e intensa de que o pênis (ou, nas mulheres, a vulva e os seios) se afastará do corpo e possivelmente causará sua morte.”

O koro é uma doença psiquiátrica e ainda é um mistério para a ciência, pois o fascinante nessa síndrome é que ela não atinge somente uma pessoa, mas ocorre em forma de epidemia, atingindo muitos homens num mesmo local e período, sendo classificada como uma “síndrome ligada à cultura” que atinge certos grupos culturais. O koro pode atingir o mundo todo, mas episódios marcantes de histeria foram descritos na África e Ásia.

Os efeitos são bastante diversos, mas a característica principal é que os doentes acreditam que seus pênis estão desaparecendo, sendo roubados por algum espirito maligno ou por algum feitiço ou praga. Um aumento grande de ansiedade, medo, pânico e desespero toma conta de homens e garotos afetados pela doença. Vocês conseguem imaginar uma situação dessas ocorrendo onde vocês moram?

Ilustração: Well Junior (www.umareticencias.com.br)
Ilustração: Well Junior (www.umareticencias.com.br)

A descoberta de que se está “infectado” por essa doença maligna pode ser bem terrível para habitantes dessas regiões: geralmente o sujeito descobre quando vai ao banheiro urinar e ali percebe que algo vai mal, pois seu amigão parece estar diferente da última vez e parece estar encolhendo. Na China, eles acreditam que essa doença é mortal, o sujeito entra em desespero absoluto com ataques de pânico, e se tiver alguém ao redor ele grita por socorro e quem vem acudir tenta espantar o mau espírito, puxando seu pênis ou dando pancadas, utilizando os mais diversos objetos. Na China, a fertilidade, procriação e desempenho sexual são extremamente importantes, e isso torna o koro uma doença ainda mais preocupante e desesperadora. A epidemia de koro que atacou a China se espalhou em 16 cidades, fazendo milhares de homens acreditarem que seus pintos iriam desaparecer dentro de suas barrigas.

Não é tão simples de se justificar a ocorrência, não dá para simplesmente encontrar uma explicação para o koro, pois essa doença envolve diversos fatores: sociais, culturais e religiosos, tudo com uma boa dose de misticismo e medo. O grande desafio para isso é entender porque ela aparece somente em certas culturas e em certos períodos históricos. Desde a década de 90, não existe nenhum novo caso descrito, por enquanto.

Não sei se devo fazer alguma analogia entre a epidemia de koro com alguns de nossos comportamentos de hoje em dia. Seria nossa dose diária de preconceitos uma espécie de epidemia que estaria assolando milhões de pessoas?

Talvez estejamos passando por uma das maiores epidemias de estupidez, e essa doença faz com que não nos damos conta disso, o chamado Efeito Dunning-Kruger, o que é pior que o koro; os exemplos são muitos e não é preciso fazer muito esforço para encontrar alguns.

Vejo alguém do futuro lendo sobre doenças psiquiátricas que afetaram os brasileiros e uma delas poderia ser: “Uma estranha epidemia tomou conta de milhares de brasileiros. A epidemia foi caracterizada pelas pessoas acreditarem que vacinas eram venenosas e estavam matando crianças e idosos, pais histéricos impediam que seus filhos fossem vacinados, sendo que isso causou milhares de mortes e a volta de doenças que já estavam erradicadas.”

Não! Os nossos pintos não estão encolhendo! Talvez, nossos cérebros.

 

Para saber mais:

O Efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos, que possuem pouco conhecimento sobre um assunto, acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a incompetência deles que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Essas pessoas sofrem de superioridade ilusória. (Wikipedia)

O escritor Frank Bures lançou um livro, chamado “The geography of madness”, algo como a geografia da maluquice, no qual ele explora epidemias como o koro. O livro ainda não tem previsão de ser lançado no Brasil.

Seguem alguns sites que discutem o koro:

http://mccajor.net/cbs_koro.html

http://anthropology.msu.edu/anp204-us13/2013/07/19/koro-culture-bound-syndrome/

 

Sobre André Sarria

Trabalho com ciência, mas não daqueles iguais aos filmes que vivem tentando criar uma super criatura radioativa capaz de dominar o mundo, sou mais um "escutador" da natureza do que cientista. A natureza fala e eu a traduzo em linguagem de gente. Nasci em Cajobi e atualmente moro em Londres onde sou pesquisador no Departamento de Biointerações e Proteção de Colheitas em Rothamsted Research.

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3 comentários

  1. Valéria Ambrósio

    Achei genial essa relação com o impedimento das vacinas!!! Conheço tantos que já são assim hoje em dia… Dá até vergonha.
    Ótima publicação, achei bem esclarecedora, mesmo com o título sensacionalista

    • Obrigado Valéria, que bom que gostou. Toda quinta-feira publicamos crônicas científicas neste espaço. Seja bem vinda para debater e participar.

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