O dia em que o padre João causou na zona

Depois de uma lamentável ausência — que, pros que engolem fácil desculpas esfarrapadas, justifico pela correria do meu regresso ao jornalismo diário — volto a postar no blog. Texto que, sem perder de vista o sacramento mor do Insônia Insana, pretende maravilhar e surpreender o leitor. Mas, este post tem um objetivo específico: ajudar um amigo querido que realmente precisa de ajuda. No último parágrafo libero as dicas de como fazê-lo. Então, por favor, leve a bargaça a sério! (a história é real, porém à exceção do protagonista, deste mediano narrador e da cidade onde a história começa, nomes de personagens foram trocados e o da outra localidade omitido, pelo simples fato de que não tive tempo de pedir autorização)

Eu tinha 16 anos quando me mudei pra Campinas, vindo de Minas, com minha família. Por conta dos ideais que começava a cultivar, descobri logo os rolês — ainda não se usava essa gíria, claro — da galera engajada pelas cercanias do Centro de Convivência Cultural, então recém-construído e ainda muito longe da lamentável deterioração dos dias de hoje. Foi por lá que vi o Paulinho pela primeira vez. Cabelão loiro ao vento, barba descuidada, olhos azuis brilhantes, bata indiana, jeans surrados e rasgados (quando isso ainda não estava na moda), sandálias singelas, vendendo artesanato e esbanjando alegria de viver, tive uma certeza: ali estava um autêntico hippie, não daqueles paridos por butique (esse conceito já era usual).

Mal podia imaginar que a mítica figura não só se tornaria um grande amigo, como viria a morar uns tempos na minha casa, que à época se popularizava na cidade como uma incrível comuna onde hippies, punks e outros alternativos co-habitavam em harmonia. A mais praticável no caso. Lógico que divergências pintavam, especialmente quanto aos estilos musicais que imperariam no modesto aparelho de som ou nas rodas de violão e no cardápio possível de cada dia. De qualquer forma, as divergências se dissipavam rápido, no eterno banho turco de maconha em que vivíamos mergulhados (menos o Paulinho: ele não usava droga alguma além de birita e tabaco, por mais que o ardil do preconceito tentasse se armar).

Crédito: creativecommons.org
Crédito: creativecommons.org

Um dia, os pais do Eymar, cansados dos desvarios do rebento, fizeram-lhe uma proposta que, de cara, soou irrecusável: estavam dispostos a alugar uma chácara numa cidadezinha próxima do litoral, mas onde não havia praia. A ideia era que ele aprendesse a cultivar a terra e passasse a dar valor ao trabalho.

Assim, nos despedimos do Eymar, que até tentou trilhar a sério o “caminho do bem”: ficamos sabendo que andava plantando abobrinha. Só que, ao que pareceu, escolheu a época errada do mercado e a safra encalhou. Aí, arrumou a primeira encrenca por lá: ao doar a produção rejeitada a um acampamento de sem-terra, se envolveu politicamente com o movimento, atraindo a ira de fazendeirões e vereadores do local.

Sentindo-se acuado e triste, ele nos fez um apelo (as comunicações eram pelos arcaicos orelhões, nada de celular e internet, então): “Venham passar uns dias aqui comigo, pra me dar uma força!”

Fomos. Uma heterogênea e barulhenta caravana, com os trocados dos bolsos racionalizados e divididos irmanamente.

A tal cidadezinha até que era bacana. A maioria do povo era amigável e dava para rangar uns PFs baratinhos.

Era de se prever que um bando como o nosso chamasse alguma atenção numa comunidade daquelas. Contudo, um comportamento geral nos intrigou: as pessoas faziam questão de reverenciar o Paulinho e umas crianças chegavam a beijar as mãos dele: “Abenção, padre João!”, murmuravam.

Paulinho (Imagem Reprodução)
Paulinho (Imagem Reprodução)

Não demorou para que descobríssemos que o Paulinho era sósia perfeito de um padre franciscano do local, muito querido e que, por inclinação religiosa, até se vestia com o nosso hippie.

Purão, como era, Paulinho até tentou desfazer o equívoco. Entretanto, nós, aspirantes a oportunistas, o refreamos. E o instruímos: cada vez que perguntavam ao “padre João” quem eram os meninos esquisitos que estavam com ele, Paulinho recitava, a nosso comando (ele era avesso a mentiras, porém mais companheiro, acima de tudo):

— São uns jovens desencaminhados que eu tô encaminhando.

Aí, a admiração pelo santo “padre” só fez crescer na cidadezinha.

Não tardou para que todos nós pegássemos carona no carisma do nosso “padre”: mais de uma família paroquiana nos convidava para almoçar e jantar. Nossos comunitários e parcos trocados agradeciam.

Entretanto, isso foi a nossa ruína: com dinheiro incrivelmente sobrando, logo tomamos o rumo mais natural para o nosso caso: os botecos (ou vendinhas, para respeitar o vocabulário local). Paulinho junto, claro.

Nosso comportamento começou a incomodar os moradores. A gota d’água, porém, foi quando decidimos dar uma esticadinha até a zona da cidadezinha (por menores que sejam, todas têm uma, além de umas duas igrejas). Os beatos ficaram horrorizados ao saber que o “padre João”, seus “encaminhandos” a tiracolo, andava se esbaldando com as putas.

Na manhã seguinte, a emissora de rádio da cidade houve por bem levar um comunicado ao ar: “É nosso dever esclarecer que o indivíduo que vem se passando pelo nosso padre João não é o padre João. O nosso padre João está fora, participando de um evento religioso”.

Tratamos de vazar, antes que as foices e forcados nos cercassem.

* * *

O doce e único Paulinho teve que amputar parte de uma perna. Por isso, está precisando de ajuda, utensílios para o lar e gêneros alimentícios não perecíveis. Ele está morando na Rua Antônio Cesarino, 401, em Campinas. Por favor, ajudem nosso “padre”! Vamos provar que ao menos uma parte da cidade consegue abraçar seus malditos.

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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