Família expõe seus conflitos, no quarto filme de Lais Bodanzky (Foto Divulgação)
Família expõe seus conflitos, no quarto filme de Lais Bodanzky (Foto Divulgação)

“Como Nossos Pais” põe na mesa o conflito mãe e filha e dá vontade de chorar

DaniPrandi_0188c_500O almoço em família mal começou e os conflitos já estão no ar. Uma mãe, rodeada pelos filhos e netos, solta aqui e ali duras críticas, daquelas difíceis de engolir. A tensão esquenta na mesma medida que a moqueca feita especialmente para o filho mais velho esfria. Uns assistem calados, mas a filha Rosa (Maria Ribeiro) não aguenta. A guerra de palavras, entre acusações e rancores, termina mal. A mãe (Clarrisse Abujamra) resolve revelar, para toda a família, um segredo guardado pela vida toda: a filha é fruto de um caso extraconjungal. Assim começa “Como Nossos Pais”, que empresta seu título da música de Belchior, o novo filme de Laís Bodanzky.

Em seu quarto filme, a diretora, a mesma de “O Bicho de Sete Cabeças” (2000), “Chega de Saudade” (2007) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), vai pelo caminho de que “todas as famílias felizes se parecem, mas as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”, como brilhantemente começa Tolstoi em “Anna Karenina”.

No roteiro escrito pela diretora, com participação de Luis Bolognesi, entram em cena as infelicidades da protagonista, uma mulher de 38 anos, com duas filhas e um marido (Paulo Vilhena) ausente, provavelmente infiel, frustrada em um trabalho desprezível, que consiste em escrever para catálogos de porcelana de banheiro.

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra: no centro da trama (Foto Divulgação)
Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra: no centro da trama (Foto Divulgação)

Agora, como se não bastasse ter que cuidar da família, da casa e do trabalho, enquanto sonha em iniciar sua carreira como dramaturga, Rosa terá que administrar a notícia de que seu pai, que tanto ama, interpretado por Jorge Mautner, em praticamente uma autoparódia, não é seu pai. Assim, Rosa não é mais quem pensava ser. E quem será? A cada diálogo, alguns muito duros na difícil relação mãe e filha, fica impossível não se emocionar. A razão da mãe ter decidido, enfim, contar o segredo para a filha, comove e dá vontade de chorar.

O roteiro toca em importantes questões quando coloca em xeque o modelo tradicional de família e atinge em cheio a plateia feminina. O filme é feminista?, essa é a questão que a diretora está tendo que responder por onde passa. Nesses nossos tempos fica a reflexão sobre o verdadeiro papel agregador da mulher e, ainda, sobre a chegada do “segundo tempo” na vida de cada uma, quando é hora de resolver se aquilo que está fica ou sai.

Maria Ribeiro ganhou prêmio de melhor atriz em Gramado (Foto Divulgação)
Maria Ribeiro ganhou prêmio de melhor atriz em Gramado (Foto Divulgação)

As batalhas da protagonista em torno das exigências impostas à mulher, ou, por quê não?, à supermulher contemporânea, mais os conflitos com a mãe, a frustração pelo casamento prestes a ruir apesar dos esforços e um desejo recorrente de um novo amor, aqui na figura de um pai de um amigo da filha, se encontram na referência à personagem Nora, da peça “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen. Depois que Nora finalmente vai embora daquela vida, a peça acaba. E depois? O que terá acontecido àquela mulher?

“Como Nossos Pais” estreou no começo do ano na Mostra Panorama do Festival de Berlim e recebeu boas críticas. Logo depois foi escolhido o melhor filme do 19º Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Antes de chegar aos cinemas brasileiros, faturou seis prêmios no Festival de Gramado:  direção, atriz (Maria Ribeiro), ator (Paulo Vilhena), atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra) e montagem (Rodrigo Menecucci). (Desde já, é franco-favorito na lista de indicações ao Oscar, mas ninguém aqui é ingênuo para acreditar que a escolha não é política, portanto vamos deixar essa questão de lado.)

Maria e Jorge Mautner, que interpreta o pai amado (Foto Divulgação)
Maria e Jorge Mautner, que interpreta o pai amado (Foto Divulgação)

Está certo que há um pouco de artificialidade aqui e ali, e pelo menos uma personagem deslocada, a meia-irmã de Rosa (Antonia Baudouin), que só aparece para alimentar a fogueira de incertezas deste novo velho mundo, como para reafirmar que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Mas cada um vive como pode, ou como quer, e sempre há um preço a ser pago na busca pela felicidade. O desfecho é revelador, principalmente quando um certo tênis All Star surrado vai parar na lixeira.

 

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Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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