Palavra Roubada

JaquelineFernandes_0112_400x400O que vem primeiro: palavra ou pensamento? Diadorim era minha neblina, diz Riobaldo em Grandes Sertões Veredas. Neblina? Diadorim enevoado em Riobaldo. A palavra neblina se desterritorializa, se desgarra de seu habitual habitat e inaugura em mim novo pensamento. Pode alguém ser minha neblina? Naquele momento, tomada pela leitura, uma felicidade se instaurou, ampliando os percursos de meu pensar. Penso a criança. Como aparece o que pode ser dela?  Nasce com nome, herda língua, palavras e pensamentos maternos. Difícil construir um lugar singular que não junto à mãe. Uma porta pode ser a poesia, a criança em contato e produzindo enriquece vocabulário, elabora seu mundo descolando-se, minimamente, do familiar. Mesmo não compreendendo, absorve uma semente que vingará em seu desenvolvimento.

Palavra desgarrada de seu território

Palavra bem-dita adere escuta, acalma monólogos, encontra diálogo. A palavra bem-dita pausa na etimologia, pausa partindo a palavra ao meio, pausa pra ver a nova coreografia do verbo no pensamento. Ensinar poesia para a criança é o mesmo que apoderá-la de uma história melhor, mesmo que sua história não seja interessante, ela pode ser bem contada e isso muda tudo.

Criança que cresce em contato com a poesia, narra sua história de modo interessante, como um bom livro terá sempre alguém disposto a escutá-la. Quem sabe a palavra bem-dita a desvinculará das amarras verbais mecânicas que advém de seu nicho familiar. No exercício lúdico do contato e do fazer poético, a criança aprende a roubar palavras, plagiar metáforas, homenagear autores, incorporar pensamentos que ultrapassam o senso comum. Encontra, inventa, cria uma narrativa capaz de explicar o que sente, o que vê, o que sonha.

acalma monólogos_Jaqueline Fernandes

Como se faz? Simples. Ofereça livros de poesia, não precisa ser infantil, melhor não. A criança, de olhos fechados, toca com o indicador palavras ao folhear às cegas um livro de poesia. Comece com o amor, no amor cabe qualquer coisa, qualquer gramática, rima ou dissonância. Arrume com ela o que aparece, mostre que cortar, mudar de lugar, melhora o texto e encontrará resultados surpreendentes. Ela se sentirá autora e criará o desejo da leitura. Seguem alguns exemplos de oficinas de poemas de amor.

o amor fechou o leque
devagar se retirou para nada acordar

o amor é ver o lavado da pedra
fraseador

o amor é uma espécie de madrugada
botas finas vermelhas
uma primavera de cerejas
líquen nas pedras
coisas mansas bebendo água

o amor é andar a pé
o que é feito de pedaços
uma estrada deserta

amarras verbais mecânicas que advém de seu nicho familiar_Jaqueline Fernandes

o amor veio pertinho da minha janela
prá ver se eu durmo
noites por cima das águas
sínteses prematuras

o amor não precisa bater do lado de fora
toca com suavidade a mesa coberta de folhas
é uma branca cabeça entre minhas mãos
só por um segundo cego
cobre de mel minha alma

o amor é um dicionário de caracóis
é estar perfeitamente maduro para morrer
é ficar coberto por sorrisos maiores
perseguir borboletas

o amor é a chuva deformando as horas
escutar o céu, não perder a poesia
desenhar uma flor de cinco pétalas
uma coisa boa no banho
a mesa forrada e flores brancas numa noite feliz

o amor é o casco da tartaruga
a ponte onde chove o rio
a luz negra deixa o branco mais branco

é procurar dentro
a palavra aberta
uma saudade funda
livro perfumado

o amor é um passeio que acontece
é sal no mar
aprendimentos

é o que há de você na água
é sobre as pequenas coisas
pétalas de peixe
sol ou pedra como se fosse raiz
passa de um lugar ao outro

é o barulho dos cactos
é olhar com teus olhos estrelas maiores

o amor é o início de um átomo
o lugar do centímetro
grandezas do ínfimo
sua voz no eco das palavras

o amor é inventar poesia que não precisa razão
dentro da boca e escuro

pausa pra ver a nova coreografia do verbo_Jaqueline Fernandes

Sobre Jaqueline Fernandes

Percorro palavras e me movimento em torno da literatura, psicanálise e arte. Leio pinçando, produzo com o que arranco e/ou modifico de sua origem. Recorto cenas de sonhos, adiciono interpretações advindas do divã. Poesia, pintura, contos curtos e maternidade são minhas criações no momento. Nasci em 1968.

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4 comentários

  1. Olá,
    Que delícia ler um texto inteligente e sensível.
    Escrito para não apresentar respostas, mas mostrar aberturas, maravilhas e a bagagem deliciosa da artista envolvendo o universo da poesia, arte e das crianças.
    Um enorme prazer!
    Abraços
    Bel Dias

  2. Amei, pinturas lindas, textos fortes.
    Parabéns.

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