Buraco da fechadura

CacaloFernandes_0179_400x400Até o padre da cidade veio dar uma espiada. O guindaste se estrebuchava em manobras e nada. Adalberto, de braços cruzados, permanecia na calçada em frente da casa, enquanto Alziza entrava e saía aflita, temendo o embaraço da máquina e os braços cruzados do marido. A piscina não queria entrar na casa nem a pau. Taquatinga torcia pelo sucesso de sua primeira piscina.

Taquatinga era uma boa cidade para se viver. A cidade dormia e acordava cedo. Trabalhava, se alimentava, conversava na calçada, futricava na praça, rezava e colhia cana e laranja, produtos que lhe permitiram durante anos pintar as casas e conservar a igreja matriz. Esta rotina se arrastou até o dia em que Adalberto voltou à cidade com a mulher e a sogra, depois de duas décadas em que Adalberto viveu de desacertos na capital paulista.

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Adalberto, agora aos 40 anos, enricara. E resolveu trazer o ouro para a cidade onde vivera a infância e adolescência, nadara nos riachos da redondeza e investigara primas peladas pelo buraco da fechadura. Foi ali que conheceu a família Curi.

Seu Curi era um cidadão importante daquela cidade do oeste paulista. Primeiro foi dono de um armarinho que vendia de tudo, de alparcatas a canivetes e fumo de corda. Depois o armarinho ganhou pompa, transformou-se na Loja Curi, que passou a vender mesas, poltronas, sofás, fogões e geladeiras.

Adalberto ingressou no negócio ainda nos tempos de Armarinho Curi, na condição de aprendiz, e terminou como gerente da loja adulta. Nessa trajetória, conheceu Silvinha, a única filha de Curi. Os dois se fizeram condutores de boa fase da loja. Durante meses, Curi reservara bom lugar para seu gerente nos almoços de domingo, ao lado de Silvinha.

Os pais estavam abismados com a mudança da filha desde que Adalberto havia começado a frequentar a casa. A moça falante, uma matraca, segundo a mãe, desaparecera. O casal era silêncio só. E no balcão da loja era a mesma coisa.

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Nagib, compadre de Curi, é que um dia se atentou para a estranheza da situação. Notara que o casal ficava cada dia mais avoado na hora de atender aos clientes. Era como figura de quadros de decoração, o que destoava da condição de vendedores da loja mais movimentada de Taquatinga. Nagib, para quem o sucesso da casa era um milagre, foi categórico: “isso tem um nome: paixão. Desculpe-me, Curi, e tem mais: bolinação”.

Curi não dormiu naquela noite. Ficava pensando nas palavras do compadre, na avaliação severa feita por ele, em sua convicção em imaginar coisas que o balcão escondia. E pensou também nos almoços de domingo e na possibilidade de a mesa em que a família rezava antes das refeições ainda servir de trincheira para carícias do casal. Esperou a semana passar.

Domingo, abriu mão de beber o seu drinque. Na mesa, deixou que a mulher falasse e falasse. A mudez do jovem casal que conduzia sua loja, o que um dia lhe parecera sinal de respeito, era agora uma estonteante desconfiança. Resolveu enfrentar a agonia que lhe atazanava. Fez então com que o guardanapo caísse sob a mesa, ficou de quatro e espiou. Adalberto era um sonso. A calcinha da filha estava quase na canela. E lá se foi Adalberto para ruas distantes. Assim ele acendeu e apagou as luzes da cidade.

Em São Paulo, Adalberto se instalou em uma pensão na área central da cidade. Ali fez de tudo, vendeu relógios e radinhos paraguaios, distribuiu até folhetos de propaganda em semáforos. De vez em quando acertava alguma tacada, que ele vislumbrava como a abertura de uma nova fase. E o novo merecia comemoração em grande estilo: roupas, perfumes, uísques.

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O depois o deixava muito deprimido. Fim de ressaca, o tempo passava e o novo não dava as caras; estava perto, ele sabia, mas se escondia. Era um fantasma que zanzava camuflado na metrópole. Adalberto se trancafiava em igrejas, qualquer igreja, para não ter de encarar os companheiros de noitadas que lhe azaravam a vida. Chorava muito nessas horas. Num desses retiros, conheceu Alziza, que, sensibilizada, deu os ombros para ali o rapaz derramar suas lágrimas.

Carinho quase tão rico quanto ao que passara a sentir por Alziza, Adalberto vira nascer pela sogra, um doce de senhora, que não sabia como cuidar do dinheiro que seu finado lhe deixara. Ele sabia. O novo enfim chegara.

O casal decidira que a vida da família seria modesta  ‑só luxos banais, ponderava Adalberto‑, e que os três iriam morar em Taquatinga numa casa que Adalberto já escolhera, um sobrado simples que só pedia, no futuro, poucas reformas. Naquela casa só entraria o bem simples.

Como combinado, o caminhão chegara logo cedo. E Adalberto admirou aquela beleza entronada sobre a carroceria. Teve vontade de chorar. Chamou Alziza para que não perdesse um fio daquela história. Escancarou o portão da garagem e sorriu para o pessoal da piscina. Nascia o lado simples de Adalberto.

O homem do caminhão desconfiou do tamanho da entrada da garagem, da possibilidade de dar passagem à piscina e seu pequeno trator de locomoção. Reclamou da execução da reforma, achou a obra entrecortada demais.

Mediu, mediu e sentenciou: “não vai dar, só por cima, com um guindaste”. Adalberto olhou para o relógio, como a reclamar da demora da nova máquina que o condutor do caminhão acabara de falar. Os carregadores de piscina se sentaram na beira da calçada, tomaram o café servido por Alziza e esperaram.

O guindaste era imponente e trouxera os primeiros curiosos para o local, que era protegido por Adalberto, com seus braços cruzados e sua carranca. O operador do guindaste olhou e pensou: “Aquela chaminé não vai deixar passar a piscina”. Adalberto percebeu a hesitação e questionou: “o que foi? Vai carregar ou não vai?”.

O operador estava inconformado com o tamanho da chaminé. Olhou a casa e percebeu que era apenas ornamento, que não tinha fumaça alguma para escoar. Com exceção de Adalberto que enfezara de vez e observava o horizonte, todos miravam o que se fazia. E alguém arriscou: “e só passar a piscina sobre a casa do vizinho”. Adalberto pensou cinco segundos e ordenou: “passa a piscina sobre a casa do vizinho”.

A novela da piscina chegava ao fim. Em uma cabina, na arte superior da máquina, o operador seguia sinais dos auxiliares para fazer o transporte da carga sobre a casa do vizinho: “ergue a piscina, baixa a piscina, mais para a esquerda, mais para a direita,  atenção, cuidado”. Os curiosos que tomavam a rua estavam embasbacados com a demonstração de perícia do operador, um artista, que nem qualquer fulano do rádio ou da televisão.

De acordo com o planejamento de Adalberto, a sogra, que recebera dose adicional de sonífero na noite anterior, só seria acordada quando a surpresa estivesse no quintal. Aí abriria a janela e daria de cara com o azul da piscina, quase um mar. Era o presente pela chegada à casa nova. A velha ainda dormia quando a casa do vizinho foi ao chão.

O guindaste deu enguiço e fez explodir não só o telhado da casa do vizinho como o grito da plateia. Alziza desatou a coçar a cabeça. Adalberto permaneceu de braços cruzados. Só os seus olhos deram sinal de espanto com o tombo espalhafatoso da piscina. Em meio à multidão que se aglomerava na rua, Adalberto notou a presença da Silvinha. Ela sorria. Ele, um tanto confuso.

E Alziza apareceu. Chamou Adalberto e lhe falou baixinho: “aquele pãozinho que você gosta está quentinho! Você não quer comer, meu amor”?

Adalberto olhou a mulher.

Abraçou o seu ombro; ela, sua cintura, e eles seguiram sorridentes para casa.

Taquatinga nunca vira espetáculo igual.

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Sobre Cacalo Fernandes

Ser paulistano foi o início de uma história de quem certo dia decidiu ser um escrevinhador. Mas quando a calça deixou de ser curta, lá no início, ajudou a construir esse lado que um dia pareceu esquisito. E hoje acho que não poderia ser outro.

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