O reino encantado do meu avô

carlaozinho_0256_400x400O sítio dos meus avós, porçãozinha de terra pouco agricultável, mas belamente incrustrada entre vales solenes e indiferentes da cadeia de montanhas das Gerais e um céu azul demais, era o destino de minhas férias escolares e das dos numerosos primos da mesma pouca idade. A gente se esbaldava ao ar selvagem e se sujava sem que ninguém enchesse nosso saco inocente.

Mas eu demarcava uma diferença em relação à renca de primos: enquanto eles sussurravam pelos cantos que vovô já andava caducando, eu prestava muita atenção nele, a quem achava malucamente fascinante.

Certo que o velho não ajudava muito, com as histórias de assombrações… teve até aquela noite que, após contar a lenda do “fantasma da porteira”, cismou de nos pregar uma peça. A história dava conta de um carroceiro que havia sido esmagado contra a porteira de uma fazenda pelo transpor da própria carroça, algo com cavalos estupidamente instigados. “Desde então, a alma penada do coitado assombra as porteiras do mundo (era uma lenda, pois não?). Aí, se você bater porteira sem fazer o sinal da cruz, vai ser assombrado!”

E nos desafiou a bulir na porteira do sítio. Sim, uma figura surgiu. Só que enxergamos as surradas botinas sob o lençol branco com o qual ele se cobria, fazendo “buuu!” Puxamos o lençol e, além do mico que vovô pagou pra molecada, ainda tomou um pito da vovó por ter sujado roupa de cama.

Nem assim minha admiração foi severamente arranhada. Mas nos últimos anos, ele realmente andava com uns comportamentos estranhos. Vovó, por exemplo, achava esquisito o desfecho das caçadas e pescarias às quais ele se dedicava religiosamente todo domingo. É que, embora se equipasse, como de costume, com a cartucheira, o caniço e o samburá, nunca voltava com qualquer animal abatido e, mesmo os peixes que trazia era evidente que foram comprados em alguma peixaria (ele não podia mentir: nem eram espécimes nativos da lagoa local). “Outro dia ruim… até parece que os bichos tão desaparecendo…”, justificava, enquanto vovó murmurava entredentes: “É, acho que o veio abilolou de vez…”

Kryziz Bonny/creativecommons.org
Kryziz Bonny/creativecommons.org

Resolvi descobrir o mistério por trás da história (sabia que haveria um). No próximo domingo em que vovô se preparou pra sua incursão, pedi pra ir junt0. Aparentemente confiava em mim e permitiu.

Aliás, não seria a 1ª vez que eu, o neto mais “carrapato” o acompanhava nas aventuras domingueiras (os primos declinavam odiosamente do privilégio). Só que havia algo muito, muito diferente: nas ocasiões anteriores, o velhão já havia abatido com a cartucheira ao menos um bicho-preguiça e uns dois preás, antes de fisgar os gordos curimbatás e tilápias, além de uma miríade de lambaris com vocação perfeita pra tira-gosto. Mas daquela vez, avançávamos em silêncio, sem que um mero tiro fosse disparado, apesar da oferta ostensiva da fauna local. Eu, mesmo riscado pelos espinheiros agressivos a postos às margens da trilha precária, respeitei o inesperado voto de silêncio do velho.

Chegamos à lagoa. Vovô deu uma longa espreguiçada, soltou um peido musical, mas nada de armar os utensílios de pesca. Estranhei de vez:

— Uai, vô, não vai começar as pescar, não?

Ele não respondeu. O breve silêncio foi quebrado por uma melodiosa e sensual voz feminina que, pra meu espanto, vinha da superfície calma do lago:

— Bom dia, velhote. Tá atrasado, cheguei a pensar que ia bater um falhão…

Meus parcos pelos arrepiaram ao constatar que quem falava era uma espécie de sereia, quase toda afundada na água, mas mantendo de fora os lábios carnudos que nos falavam e o rabão prateado de peixe que ondulava com mágica malícia.

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M. Cel. Souza/Portal dos Mitos

Quar! Enquanto eu não te traçar, conte com minhas visitas, querida Iara. — reagiu vovô, falastrão.

— Vai sonhando, monte de carne mundana; e vê se aprende a respeitar a extraordinária esposa que te espera, disposta a acreditar nas tuas lorotas. — cuspiu de volta, sem piedade, a coisa bela quase submergida.

Eles gargalharam em coro como dois capetas no cio.

Sabendo que o atônito netinho da cidade ansiava por uma explicação, o velho entregou:

Minino, ess’aí é a Iara, que protege as coisas da água. Hoje, somos amigos, mas quando a conheci, passei por um tremendo perereco. ‘Cê lembra bem como eu era: matava qualquer bicho que desse pra comer e até usava cartuchos de bomba caseiros pra fazer os peixes pular da água e os catava com rede. Até o dia em que esta senhorita aí me apareceu e me deu um caldo sofrido o suficiente pr’eu repensar o quanto minha vida era errada.

— É, burro veio tamém aprende… — agora, quem falava era um moleque negro, perneta, com gorro vermelho e fumando cachimbo, que se materializou do nada atrás de nós.

— Saci, seu veiaco! Chega mais, quero te apresentar meu neto.

— Tá brincando? Da última vez ‘cê tentou me aprisionar numa garrafa pra virar violeiro dos bons.

— Esquece isso, muleque, faiz tempo que desisti da carreira musical…

— Uma hora, você vai ter que confiar nele, Sacizinho. E, realmente, o homem tomou um rumo bom. — a voz, grave, agora vinha de um ser que parecia em chamas, encastelado nos galhos de uma árvore.

— Oi, Curupira. ‘Brigado, com teu testemunho a meu favor, só tenho a ganhar.

Don Graham/ creativecommons.org
Don Graham/ creativecommons.org

As figuras espetaculares já tinham evaporado e tomávamos o rumo de casa, após uma passadinha na peixaria da cidade, onde vovô comprou um monte de peixes. Sem ligar mais pros espinhos, busquei satisfazer uma última curiosidade:

— Mas vô, se você não mata mais bicho algum, por que se preocupa em enganar a vó comprando peixes?

— Primeiro, porque preciso garantir sustança pras refeições da família. Depois, ia ser muito complicado explicar pra veia porque virei vegetariano (o termo “vegano” ainda não vigorava). — encerrou meu fantástico avô.

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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