Um churras desastroso

carlaozinho_0256_400x400“Tô c’uma fome fedaputa!” O mantra, que já enchia muito o saco dos outros integrantes da expedição, era repetido à exaustão, lógico, pelo cadete Adriângelo 32, o glutão da galera, mas tão glutão, que jamais se convencia dos valores nutricionais da alimentação sintética acondicionada em cápsulas esterilizadas que deveriam garantir o sustento dos expedicionários. “Afinal, são só bagulhinhos sem sabor algum!”, detonava o esfomeado.

O comandante Puethgarr 19, mais uma vez, se viu obrigado a remonitorar o quadro. Ok: todos usavam as vestes isolantes (até mesmo o comilão reclamação), então, o risco de contaminação ambiental/histórica do período continuava descartado. Ora, que o bebê guloso continuasse a chorar, foda-se!

Afinal, a missão deveria prosseguir sem sobressaltos. Desde que a ciência lhes abriu as portas para o passado,— o futuro ainda era inescrutável, uma sopa quântica de multipossibilidades mutáveis incontrolavelmente — desenvolveram o Projeto Exactabio: por ele, começaram a mapear com extraordinária precisão a cronologia de eventos, incluindo acontecimentos mais recentes, como a extinção dos dinossauros e a evolução do homo sapiens. A fase na qual os expedicionários estavam engajados agora era considerada crucial: documentar, com imagens e notações técnicas, o momento do surgimento da vida animal fora do meio aquático (a eclosão das plantas terrestres já havia sido documentada). Outras pesquisas com focos mais remotos, como os momentos exatos do big bang e a formação do universo, tinham resultado em êxito irrefutável.

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Crédito: G. bohne/creativecommons.org

Datar e documentar o início da vida animal fora da água era crucial porque a mera extrapolação baseada em cálculos diferenciais se encurralava numa incongruência: o evento perseguido parecia ter se atrasado em alguns milhões de anos. Como se uma extinção súbita e inalcançável do ponto de vista lógico houvesse se abatido sobre o período até então considerado “estudável”. Extinções foram muito frequentes na infância planetária, mas aquele enigma temporal intrigava demais pesquisadores cada vez mais afeitos à exatidão.

Com o nariz costumeiramente empinado, o comandante Puethgarr 19 farejou a brisa na praia ancestral onde, segundo as projeções, a primeira leva de bichinhos deveria emergir do mar e começar a construir seu novo lar em terra firme.

Enquanto montava sentinela, ia repassando mentalmente períodos e fatos correspondentes. A Terra é datada exatamente de 4.744.203.416/21 anos/oito dias/34 minutos e, fechando a conta naquele momento, seis segundos. Ao se formar, o planeta era extremamente quente, por isso não abrigou de imediato qualquer forma de vida. A formação dos oceanos foi fundamental para o surgimento da vida. Surgiram primeiramente bactérias e algas, além de microrganismos, há cerca de 3,5 bilhões (em algumas etapas do produtivo devaneio, o comandante Puethgarr 19 até abria mão da precisão neurótica).

Essas primeiras formas de vida foram importantes para o surgimento de outros seres. Oriundos dos microrganismos, nasceram invertebrados como medusas, trilobitas, caracóis e estrelas-do-mar.

Há exatos 429.145.654/29 anos/3 meses/21 horas/45 segundos (contando agora; de volta à precisão neurótica), dentro do período conhecido como Siluriano, e naquele exato ponto do planeta, deveriam surgir pequenos artrópodes, semelhantes a bichos-de-conta, aranhas e centopeias primitivas. Só muito tempo depois é que se aventurariam os primeiros peixes que criaram perninhas.

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Crédito: Bill Strain/creativecommons.org

Além do comandante, cada expedicionário inspecionava ansiosamente um trecho da praia. Mas ainda nada…

Foi quando o nariz sempre empinado do comandante captou um odor diferente naquela praia pré-pré-histórica; diferente e… saboroso.

Passou em revista a tropa. Todos pareciam empenhados na vigilância. Todos… menos o cadete Adriângelo 32: ele estava diante de uma fogueira obviamente produzida com o concurso da pistola de plasma que todos eles portavam, por segurança. O mandachuva aproximou-se e logo percebeu a fogueira na qual o glutão assava algo em espetinhos improvisados.

— Comandante, — balbuciou o churrasqueiro inesperado — só não te convido pra sentar porque não há onde sentar. Mas sinta-se convidado pro churrasquinho.

— Churrasco de quê, infeliz? — trovejou o comandante, colérico, e já sabendo de antemão que não gostaria nem um pouco da resposta.

— Ah, enquanto eu tava aqui, no “meu” trecho da praia, com o bucho roncando de fome, vieram rastejando uns bichinhos esquisitos. No começo, fiquei com nojo, mas bem assadinhos, até que têm um gostinho bom…

Sobre Carlãozinho Lemes

Antes do jornalismo, meu sonho era ser... astronauta. Meu saudoso pai me broxou: “Pra isso, precisa seguir carreira militar”. Porém, nunca deixei de ir transmutando a sucata anárquica dos pesadelos em narrativas cambaleantes entre ficção científica, uma fantasia algo melancólica, humor insólito e a memória — essa tumba mal lacrada de maravilhas malditas. Assim, é o astronauta precocemente abortado quem proclama: rumo ao estranho e às entranhas!

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