O sabor da vida em um doce de feijão

 

DaniPrandi_0188c_500Elas chegaram em bando, com seus olhos puxados, ocuparam o centro da sala de cinema, abriram suas bolsas e compartilharam dorayakis, doce japonês que tem sabor de infância. “Está servida?” As duas pequenas panquecas recheadas com pasta de feijão estalaram na primeira mordida.

Como não me lembrar das festinhas dos amiguinhos da escola? Venho de uma família de imigrantes italianos, mas tive a influência dos japoneses que encontraram sua chance em Osvaldo Cruz, no oeste do interior de São Paulo. E dorayakis eram para dias de festa. Pelo menos para mim, a garota do “cabelo de caracol”, como diziam.

No filme que estava para começar, o doce seria o protagonista. Logo as senhorinhas trataram de se recompor, atentas aos avisos antes da sessão.

“Sabor da Vida”, da diretora japonesa Naomi Kawase, começa logo com as cerejeiras em flor, símbolo de um Japão poético, mas que carrega uma certa crueldade ali, na desfaçatez da florada que, ao mesmo tempo encanta e faz lembrar que nada é para sempre. O filme abriu a mostra Um Certain Regard, do Festival de Cannes, de 2015. No ano passado, integrou a Mostra Internacional de Cinema de SP e, desde então, se tornou fenômeno de bilheteria nos cinemas alternativos.

O filme, com roteiro da diretora em parceria com Durian Sukegawa, retrata três personagens que, cada um ao seu modo, enfrentam exclusão social. Sentaro, interpretado por Masatoshe Nagase, leva a infelicidade no rosto. Gerente de um quiosque que vende dorayakis, está ali a contragosto. Não come doces e a cerejeira da esquina o incomoda ao espalhar suas flores por todos os cantos.

Tokue, brilhantemente vivida pela veterana atriz Kirin Kiki, se encanta com a brancura das flores e o reluzente momento em que os raios de sol confundem os olhos. Aos 76 anos, quer trabalhar e está ali para se candidatar à vaga de ajudante de Sentaro.

Além da idade avançada, Tokue tem algo a mais, suas mãos escondem algum defeito, e Sentaro reluta em contratá-la. A idosa ganha um dorayaki e é despachada para onde veio. Mas retorna dias depois com um pote de doce de feijão.

Sentaro experimenta, é confrontado, renasce. E seu dorayaki sem vida é outro na combinação com o doce trazido pela senhora. Aos poucos o gerente e a nova ajudante entrelaçam suas vidas a partir da mágica de transformar feijão em doçura. “Você tem que ouvir os feijões”, ensina a veterana.

Enquanto isso, as cenas dos feijões borbulhando, cozidos à perfeição, fazem as minhas companheiras da sessão de cinema se remexerem. Uma delas cochicha algo em japonês e todas concordam.

O doce japonês dorayaki é também protagonista da história e aparece em cenas como a dos feijões borbulhando, cozidos à perfeição Fotos: Divulgação
O doce japonês dorayaki é também protagonista da história e aparece em cenas como a dos feijões borbulhando, cozidos à perfeição

Na tela, o doce ganha vida própria. Na trama, atrai clientela, provoca filas, faz sucesso. A adolescente Wakana (Kyara Uchida), frequentadora do quiosque, é uma das que percebe a diferença. A jovem, filha de pais separados, vive com a mãe que não lhe dá nenhuma atenção. No relacionamento no quiosque, encontra um pai e uma avó postiços.

Está formado o trio.

Aos poucos se descobre as exclusões de cada um. Sentaro é um ex-presidiário obrigado a pagar uma dívida com seu trabalho. Tokue foi levada ainda criança para um sanatório que abriga vítimas da hanseníase, a tão temida lepra. Wakana é uma jovem de agora, que vive sem perspectivas, pensa em fugir enquanto cuida de um pássaro preso na gaiola. Mas é a única que tem a vida toda pela frente.

A diretora, que tem no currículo filmes fundamentados nos elementos da natureza, como “Floresta dos Lamentos”, de 2007, e “O Segredo das Águas”, de 2014, usa a passagem das estações do ano para registrar o ciclo de nascimento, morte e renascimento que nos move. Mas, além das feridas emocionais, a cineasta aborda ainda a grande ferida histórica que é o tratamento dado aos leprosos no início do século 20, quando eram afastados da convivência social, confinados, isolados.

O filme da diretora japonesa Naomi Kawase se tornou fenômeno de bilheteria nos cinemas alternativos, abriu a mostra Um Certain Regard, do Festival de Cannes, de 2015, e integrou a Mostra Internacional de Cinema de SP do ano passado Fotos: Divulgação
Filme de Naomi Kawase virou fenômeno nos cinemas alternativos, abriu a mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes e integrou a Mostra Internacional de Cinema de SP em 2015

Mais uma vez as lembranças da infância invadem a mente. Uma vez, ainda criança, um pessoa diagnosticada com hanseníase foi levada de minha cidade. Nunca soube para onde.

A trama está perto do final, o sabor do doce degustado no início da sessão já desapareceu e a garganta dá um nó enquanto todos adivinham o desfecho. Os movimentos de câmera delicados, algumas imagens desfocadas, as atuações irrepreensíveis, tudo serve para afastar qualquer ameaça de pieguice. A tristeza enche a tela, mas é de uma sutileza infinita. Despojado na narração e no visual, o filme termina por resgatar o “sabor da vida”. Ainda que seja preciso limpar as lágrimas antes da despedida das novas amigas naquela sessão da tarde.

Era um filme de chorar? Mas não era um filme sobre um doce?

Confira o trailer:

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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8 comentários

  1. Fabiana Pacola

    Lindo, Dani ! Vontade de parar tudo o que estou fazendo para assistir agora. Bjs

  2. floripes Minari

    Dani…amei, me senti no cinema assistindo o filme Sabor da vida…vc ė uma narradora maravilhosa…quero ler mais artigos seus….amei…

  3. Dani, como sempre, um bom texto e boas histórias. Parabéns e muita força.
    bj

  4. Jurandyr Pereira da Costa

    Oi Dani,
    gostei muito de suas três “crônicas-críticas”, destacando-se a dos “dorayakis”. Ficou a impressão de que já os conheço. O seu texto é demais.
    Abraço grande.

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