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A demolição autoritária do Palácio Monroe, considerado um "trambolho", aconteceu na década de 1970, no governo Geisel

“Crônica da Demolição”, documentário para quem perdeu a memória

O filme é “Crônica da Demolição”, documentário de Eduardo Ades sobre a derrubada do Palácio Monroe, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar. A sala está incrivelmente lotada em um sábado à tarde e, com o sistema de comprar assento numerado, é sempre uma loteria. Desta vez, fiquei no meio de uma família que assim que o filme começou a filha adolescente passou a perguntar sobre cada questão que era colocada. Enquanto o general Geisel e outros personagens no centro de uma demolição absurda, que ficou como um trauma, contada no documentário com muita inventividade, com toques de suspense para quem não sabia a história – como eu, a família no cinema, que era um grupo de umas seis ou sete pessoas, bem no meio da pequena sala do circuito alternativo do Rio de Janeiro, passou a …

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A sorte foi obrigada a acordar

A vida do casal estava perfeita. Tudo caminhava com doçura. Ela trabalhava em casa e ele na rua. Ela lavava e cozinhava como se tivesse uma vara de condão. Ele fazia tudo que podia e um pouquinho a mais. E tornou-se um bom trabalhador. Se havia qualquer problema, a primeira coisa que falavam era “chama o Zeca, ele resolve”. A vida do casal tornou-se exemplar no bairro em que moravam. E todo mundo chamava o Zeca para o que acontecesse. Se havia um problema com um parafuso, que enroscara e não se movimentava nem implorando, a solução estava nas mãos dele. Privada, lâmpada, fusível; tudo.  A fama de Zeca começou a espalhar-se para os bairros vizinhos. Quando tinha feira no bairro, é que eles sentiam que a pobreza chegara ao fim. Todo mundo queria trocar uma proza. “Aquele chuveiro está …

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Crédito: Ricardo Giaviti/creativecommons.org

Uma outra conversa na Catedral

Eu adorava os passeios dominicais por Campinas, levado pelas mãos carinhosas da tia Lídia. Até porque, no final de cada um, ela me regalava com pastéis do Voga e gibis comprados na Banca do Alemão. O daquela tarde, lembro-me bem, foi um exemplar em preto e branco que mixava personagens de Walt Disney com Pernalonga e outros mascotes corporacionais da Warner Brothers (crossovers não eram tão comuns nas HQs da época): edição rara, que guardo até hoje. Entretanto, menino recém-chegado, o que me maravilhava mesmo eram os pontos históricos da “cidade grande”. Por isso, foi com muita animação que adentrei com ela a Catedral Metropolitana. Minhas inclinações religiosas já não eram lá muito acentuadas à época: o que me deixou boquiaberto foi a grandiosidade e suntuosidade do estilo neogótico do templo, inaugurado oficialmente em 1883 (e que até hoje passa …

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Bagana, Beata, Bia e Guimba

Em algumas culturas, é tradição que o ancião fume maconha numa prática religiosa que lhe trará conhecimento e, só depois, ele será capaz de sabiamente analisar a fundo questões importantes de sua comunidade ou tribo. Ao que parece, essa prática possui um fundo cientificamente comprovado. Pequenas doses de THC (Δ9-tetrahidrocanabinol), o ingrediente ativo da maconha, revertem o envelhecimento cerebral de ratos idosos, melhorando sua atividade cognitiva. É isso que diz o estudo publicado, recentemente, na revista Nature Medicine. Nosso corpo possui o chamado sistema endocanabinoide, que é composto de receptores, todos os mamíferos possuem e ele está localizado no cérebro e em todo o sistema nervoso periférico. O sistema endocanabinoide está envolvido em muitas funções biológicas, como respostas ao stress, sensação de dor, apetite, humor e aprendizado. Esse sistema foi descoberto em 1988. Um dos receptores endocanabinoides, produzido pelo nosso …

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Crédito: Agência Espacial Soviética/reprodução

O verdadeiro destino de Laika

Mais uma vez, como ocorria historicamente nos últimos 50 anos (contagem baseada no padrão temporal do planetinha cujos habitantes chamam de Terra), a moção dividia ferozmente as posições dos participantes do Conselho das Espécies de Cabeça Feita (CoEsCaFe) já reunidos, via teleconferência, na 5ª Deliberação Decenal sobre a Questão T (é, “T” de Terra, o que justificava adotarem o padrão temporal daquele planeta tão controverso). Só que, na verdade, ninguém duvidava sobre para qual decisão a balança penderia quando finalmente ingressasse na comunicação os conselheiros do planeta Caxotturus — que sempre demoravam um pouco mais para se manifestar, talvez pela lentidão natural da conexão, face ao distanciamento do planeta do centro de deliberações; ou porque apenas eram soberbamente folgados, mesmo. E bota soberba: com seus corpos peludos, porém esguios, deslizando eretos, com as mandíbulas erguidas e caudas eriçadas, eles foram …

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