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Milton Jung/creativecommons.org

Panteão dos desvalidos

Para os transeuntes apressados, rumo ou de volta ao trabalho e outros afazeres de “gente normal”, aquele trecho do centro velho da cidadona não passava de uma infestação por moradores de rua, entregues à apatia e à malandragem típica dos sobreviventes sociais. Estavam certos, de certo modo. Porém, não sabiam tudo. Tampouco modificava a percepção os pedaços de diálogos eventualmente entreouvidos: afinal, aqueles desafortunados estavam sempre sob efeito de uma dieta maléfica à base de muita pinga batizada com metanol e algumas pedritas de crack. Por isso, pode ter passado totalmente batido o papo esperto travado entre Fidid0 e Mestre Ranço. O primeiro era mais um sem-teto indistinguível naquela massa de desvalidos. Já Mestre Ranço demonstrava razoável capacidade de memória e, mentisse ou não, teria origem até nobre: pertencera a uma família de inclinação protestante histórica e chegara até a ser …

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(Foto do banco do CC)

A balada do jogador de sinuca

É indiscutível que, em nossa era, as pessoas estão vivendo mais e melhor do que alguns anos atrás. Avanços da medicina, associados à tecnologia, estão propiciando uma qualidade de vida nunca antes vista e, em nossos dias,  é possível viver completamente saudável estando acima dos 80 anos. Diante dessa maior expectativa de vida, temos de pagar alguns preços: a tendência é que algumas coisas tendem a cair (mais do que nossas pálpebras). De acordo com dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, a disfunção erétil (DE) afetará cerca de 322 milhões de homens até 2025 em todo mundo. No Brasil, a doença já atinge cerca de 30% da população masculina, o que representa cerca de 15 milhões de homens. A disfunção erétil, além de um problema fisico, é, sem as dúvidas costumeiras, também um problema social: muitos homens têm …

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Crédito: Dan Flavin/creativecommons.org

A volta do poeta cego da minha cidade alternativa

  Já andei dizendo por aqui: na cidade alternativa que habitei um dia tinha sempre um poeta cego plantado nas trêmulas esquinas pelas quais eu passava. Ele adivinhava os meus passos e se teletransportava para os pontos de encontro. Sempre com um poema na ponta da alma. Um dia se chamou Calçadão da 13. Era assim: o mundo está completo primavera covardia últimos inocentes se exibem no circo em chamas nus a beijar cometas e navalhas a cidade em flashes do avesso na carne vítrea dos manequins putas de voz cava filam cigarros no Calçadão da 13 seus olhos barbitúricos são as comportas da noite esta noite de ancas trêmulas e quilômetros embaralhados esta bandeira ensopada de veneno estendida sobre o arco dos pentelhos neons sanitos esôfagos baratas breves chamas sujas no intervalo dos passos oh as pastelarias e seus …

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“O Cidadão Ilustre” é ótimo cinema argentino para rir e para pensar

O escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martínez) aguarda ser chamado para receber o Nobel de Literatura. Mas toda a pompa e circunstância da maior de todas as honrarias do mundo literário caem por terra após o discurso “de agradecimento”, quando o autor faz um manifesto veemente contra “esse tipo de reconhecimento unânime que está relacionado ao declínio de um artista”. O mal-estar é geral e é impossível não lembrar do recente desprezo de Bob Dylan a respeito do mesmo prêmio. A arte imita a vida, ou vice-versa? Mantovani é o protagonista da comédia dramática “O Cidadão Ilustre”, imperdível novidade no cinema a partir desta quinta-feira, 11 de maio. O filme, premiado no Festival de Veneza do ano passado, tem sua força no roteiro e na direção da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, a mesma de “O Homem ao Lado” …

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Meu sobrinho Gabriel, criado como deve ser (Foto André Sarria)

Se sujar faz bem

Há algum tempo, uma empresa de sabão em pó lançava, na televisão, uma campanha publicitária na qual se dizia que “se sujar fazia bem”. O comercial mostrava crianças totalmente enlameadas pisando em poças de água, outras brincavam com animais, colhiam flores, descalças, ou subiam em árvores enquanto uma voz dizia “se sujar faz bem”. O anúncio fazia uma óbvia afirmação, a de que se a criança está suja e brincando é porque não está doente. Eu sempre usava esse argumento, o do “se sujar faz bem”, quando levava bronca de minha cunhada raivosa, diante de seus filhos cobertos de lama dos pés ao último fio de cabelo da cabeça. A cada dia, estudos científicos têm comprovado a importância de uma criança ser exposta a agentes externos, como poeiras, pólen, animais e germes, para desenvolver seu sistema imunológico. A falta de …

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