Artigos Recentes

A atriz Bruna Linzmeyer interpreta Amsterdan, uma das integrantes da turma de riquinhos que se diverte na laje, no filme 'A Frente Fria que a Chuva Traz'; sua personagem destoa no grupo dando o tom da degradação     Fotos: Divulgação

O inverno está chegando em “A Frente Fria que a Chuva Traz”

Nas escadarias da biblioteca de Londrina (PR), no final dos anos 1980, conheci e virei fã de Mario Bortolotto. Naquela época, suas peças de teatro exalavam uma rebeldia juvenil carregada, com um quê de Charles Bukowski. Bortolotto logo migrou para palcos mais celebrados e hoje é um dramaturgo dos mais respeitados na cena nacional. Londrina virou passado e em um final de tarde frio e cinzento, no Rio de Janeiro, o reencontrei, na telona, em “A Frente Fria que a Chuva Traz”. Éramos pouquíssimos espectadores naquela imensa sala de cinema do Centro carioca. Bortolotto é o autor da peça que deu origem ao filme e que marca a volta à direção do veterano Neville D’Almeida, de “A Dama do Lotação” (1978), que estava há uns 15 anos sem filmar. Além disso, também atua, em um papel sob medida para seu …

Leia Mais »
Duda nasceu com microcefalia e seus pais foram considerados incapazes; ela passou a ter três mães que assumiram os seus cuidados; a história de Duda, relatada num vídeo da Unicef está rodando o mundo via internet (Foto reprodução de vídeo)

A deficiência e suas redes de solidariedade

Duda é um dos 1,2 mil bebês que nasceram com microcefalia no Brasil desde outubro de 2015. Filha de pai alcoólatra e mãe com “distúrbio mental”, considerados incapazes de cuidar da recém-nascida, Duda passou a ter três mães: três mulheres que, tomando conhecimento da situação, assumiram os cuidados da menina. A história de Duda, relatada num vídeo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) que está rodando o mundo via internet, me remeteu a uma das experiências mais gratificantes desde que tive uma filha com síndrome de Down: a vivência, no cotidiano, da solidariedade. A solidariedade não se resume ao ato em si das mulheres, ou seja, assumir Duda como filha. Expressa-se também nos laços e relacionamentos que se tecem em torno e a partir de Duda, replicando uma história recorrente quando um bebê nasce com alguma deficiência. …

Leia Mais »
palavra desgarrada de seu território_destacada_Jaqueline Fernandes

Palavra Roubada

O que vem primeiro: palavra ou pensamento? Diadorim era minha neblina, diz Riobaldo em Grandes Sertões Veredas. Neblina? Diadorim enevoado em Riobaldo. A palavra neblina se desterritorializa, se desgarra de seu habitual habitat e inaugura em mim novo pensamento. Pode alguém ser minha neblina? Naquele momento, tomada pela leitura, uma felicidade se instaurou, ampliando os percursos de meu pensar. Penso a criança. Como aparece o que pode ser dela?  Nasce com nome, herda língua, palavras e pensamentos maternos. Difícil construir um lugar singular que não junto à mãe. Uma porta pode ser a poesia, a criança em contato e produzindo enriquece vocabulário, elabora seu mundo descolando-se, minimamente, do familiar. Mesmo não compreendendo, absorve uma semente que vingará em seu desenvolvimento. Palavra bem-dita adere escuta, acalma monólogos, encontra diálogo. A palavra bem-dita pausa na etimologia, pausa partindo a palavra ao meio, …

Leia Mais »
Da esq. para dir.: Donatello, Michelangelo, Leonardo e Raphael em “As Tartarugas Ninja Fora das Sombras", chegam a brigar pela possibilidade de se tornarem humanas

Está louca? Tartarugas Ninja na capa do caderno de Cultura?

Elas nasceram nos quadrinhos underground, eram sombrias e violentas, em preto e branco, no melhor do pior estilo tosco, quase uma piada de mau gosto, na metade dos anos 1980. Poucos conheciam as tais “Tartarugas Mutantes Adolescentes Ninja” até que o filme foi lançado, em 1990. Fanática por gibis, e graças aos amigos mais underground, me divertia com Donatello, Michelangelo, Leonardo e Raphael. Demorei algum tempo até convencer o editor do jornal onde começava minha carreira de que a estreia de cinema merecia a capa. “Está louca? Tartarugas Ninja na capa do caderno de Cultura”? Na época, o filme tinha entrado para a história como a produção independente que mais tinha faturado até então. Tinha custado US$ 13 milhões e arrecadado mais de US$ 200 milhões. Era um fenômeno cultural, argumentei. O primeiro filme se resumia a contar a origem …

Leia Mais »
Boxer-12_Cacalo

Bife entrou em cena

Olhando bem para ele, e ele para nós, era isso mesmo: gostamos da cara um do outro. Não sei de quem veio o nome, se de mim ou de minha mulher. Apesar de orelha rasgada por uma briga de rua, ele de fato era um Boxer diferente. Era o Bonitão. E ficou assim. Bonitão foi achado numa dessas casas de animais abandonados pela vida. E batemos os olhos na turma. Entre os que eram oferecidos, nenhum deu bola muito grande pra gente. Salvo um deles, o da orelha abalroada. Na verdade, ele que nos escolheu para sermos seus parceiros. Parecia que ele estava adivinhando que iríamos para a casa nova, e ele junto. Só não sabia que logo chegaríamos à casa que era quase vizinha da que eu vivera minha infância, há trinta anos. Foi para lá que fomos eu …

Leia Mais »