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Crédito: Dafne Cholet/creativecommons.org

Sob a maldição das agendas fantasmas

Uns admitem mais abertamente, outros nem com reza brava, mas a verdade é que esse lance de “resoluções de ano novo” é o caô coletivo/histórico/cultural mais deslavado que existe. A megadieta prometida ao deus Narciso sobrevive só o tempo suficiente de a comilança do fim do ano que passou fazer digestão; como academia todo dia, com essa chuvarada de verão?; melhorar o mau gênio de que jeito, se todos os crápulas da sua vida resolveram, mais uma vez, formar uma superliga contra você? Breque no cartão de crédito vira missão impossível, porque descobrimos que aquela merdinha de plástico tem vida própria. Bem, já deu pra notar que sou do time dos que admitem o caôzão. A minha vergonha extra, entretanto, é que, como sou um cara das antigas, daqueles afeiçoados a papel, sempre tive a mania de registrar minhas “resoluções” …

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Crédito: Chip Harlan/creativecommons.org

A ciência e as resoluções de ano novo

Deixei de respeitar a ideia de “resoluções de ano novo” há muito tempo. Mas, até há pouco, continuava reverenciando a ciência. Se eu não tivesse cismado de misturar as duas coisas, poderia muito bem ter evitado aumentar meu poço de ceticismo. Já reparou que todo regime pra emagrecer fracassado começa num dia emblemático? Segundas-feiras, entrada do inverno (pra ficar sarado até as temporadas quentes) e — claro — inícios de anos. O calendário é a Babilônia dos auto-iludidos. Sem querer justificar a minha fraqueza, mas tentando justificar mesmo assim, creio que o que derrubou minha fortaleza já no alvorecer do ano passado foi uma doída puxada de orelha que levei de meu médico, devidamente reforçada por um mapa de pressão arterial estratosférico e um hemograma no qual o colesterol era sucesso de bilheteria. Aí, bastou um empurrãozinho da notícia publicada …

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Crédito: Vincent Tijms/creativecommons.org

Sai dessa agora, velho batuta!

Na única vez em que não consegui evitar ir a um shopping nesta época natalina, me assombrei com uma cena infernal: uma criancinha aos berros no colo de um Papai Noel com cara de bundão. Lembrei-me então de um dos ditados favoritos do meu avô meio índio, meio ET: “Gente ruim pode enganar qualquer um, mas não engana criança nem cachorro.” Resolvi pesquisar. Que a figura mítica do “Pai Natal” (“Noel” é a forma francesa arcaica de “Natal”) teria sido inspirada na persona real de Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia do século 4, que virou santo católico, até a criancinha que chorava no shopping deve ter ouvido falar. Até aí, tudo bem, afinal o cara era realmente bondoso a ponto de presentear a criançada. E para evitar confusão, é bom frisar que Santa Claus, o nome dado na …

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Pescaria

Mais interessante que tio Machado era sua mulher, a tia América. Eles não tinham filhos. Mas tinham enteados que zanzavam pelo sobrado o tempo todo. Mas o mais curioso da vida dos Machado era quando saíamos de casa para conhecermos ‑ nós “os caipiras”, como dizia tio Machado ‑ as belezas de uma “cidade idealizada por Deus”. Tio Machado nos levava em seu carro inglês, bem comprido. No banco do passageiro ao lado, ia tia América. No banco de trás, meus pais. Na traseira, eu e os meus dois irmãos, meu irmão mais velho e minha irmã mais nova. E o mais surpreendente é que quando saíamos no carro de tio Machado, antes mesmo de partir, tia América, silenciosa até então, mostrava sua voz, estridente e em alto volume. Era o início da gritaria da tia América. Quem diria? Parecia …

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“O Que Está Por Vir” retrata o implacável futuro que nos espera logo ali

O tempo passa… sabemos que mudanças virão, seja na vida pessoal ou na profissional, e o que há de se fazer? O filme “O Que Está Por Vir” faz uma brilhante reflexão sobre a incapacidade de controlar a passagem do tempo e suas consequências. No original, em francês, o título do filme da cineasta Mia Hansen-Love é justamente L’Avenir, ou seja, “o futuro”. A história começa com a visita ao túmulo do escritor François-René de Chateaubriand (1768-1848), em Saint-Malo, na Bretanha. Isabelle Huppert, que mais uma vez dá um show de interpretação, é a professora parisiense de filosofia Nathalie. Com o marido e os filhos pequenos, presta homenagem ao autor no túmulo solitário encravado na montanha. Anos depois, já cinquentona, ainda mais intelectual, com os dois filhos adultos, Nathalie equilibra-se entre a rotina com o marido (André Marcon), também professor, …

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