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Até os dentes

“Só tinha uma pessoa que me fazia tremer mais do que a Dona Wanda, a diretora da escola Elmira. Era o Seu Lourenço, o dentista da escola. Nunca sabíamos quando tínhamos que fazer uma visita até sua maldita sala, mas lembro bem quando chegou o meu dia. ‘André Sarria, Seu Lourenço está te chamando’ disse a voz sem piedade. Meu chão sumiu e deixei de sentir as pernas, não sei como consegui chegar até a sua sala. Não entrei, fiquei na porta esperando como um pardal assustado. Ele, de costas, organizava algumas caixas de metal brilhante. Percebeu a minha presença e disse: ‘sente aqui’ apontando para uma grande cadeira de corvim marrom. Vi, em sua mesinha, algodões, pinças, agulhas, serrotes, foices, facas, facões, motosseras e junto aquele maldito cheiro, sim, era cheiro de éter, álcool e cravo. Esse cheiro impregnou …

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Um filme que emociona (Foto Divulgação)

“A Noiva do Deserto” emociona com viagem para reaprender a viver

De um fiapo de história onde mulher solitária perde a mala durante conturbada viagem de ônibus pela região desértica de San Juan, na Argentina, surge um filme que emociona. “A Noiva do Deserto”, das diretoras Cecilia Atán e Valeria Pivato, é sobre reaprender a viver. Simples e arrebatador, o filme que nasceu de uma coprodução entre Argentina e Chile comprova a força da atriz chilena Paulina Garcia, em corajosa atuação, envelhecida e sem qualquer glamour. A chilena, diva do belo “Gloria”, de Sebastián Lélio, que rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim de 2013, brilha sem qualquer truque no papel de Teresa, uma mulher contida, abnegada, obrigada a se mudar após gastar sua vida dedicando-se aos patrões e sua família. Claudio Rissi, no papel de Gringo, um falastrão que cruza o seu caminho, é uma ótima surpresa. …

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A Gualicha, de Cajobi (Foto Arquivo Pessoal)

Cavalos que olham os dentes

“Meu pai tinha uma égua muito especial, ela se chamava Gualicha, uma puro sangue pangaré. Mas Gualicha era muito inteligente e, dentre tantas habilidades que possuía, deitar e rolar como um cão era a que mais fascinava as pessoas. Durante suas infinitas apresentações pelas ruas de Cajobi, meu pai a apresentava com muito orgulho e desafiava qualquer pessoa a fazer a Gualicha deitar e rolar. Claro que ninguém conseguia, pois a égua só era capaz de fazer isso quando meu pai fazia uma expressão silenciosa com a cara. Ela sabia que aquela cara era o sinal para deitar e rolar e, de alguma maneira, os dois tinham uma ligação inconsciente que não necessitava de palavra, e Gualicha sabia ler muito bem esses sinais.” Dizem que a cavalo dado não se olha os dentes, mas creio que esse antigo ditado popular …

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As plantas falam (Foto André Sarria)

O silêncio dos jardins

As plantas falam. Pode parecer ficção científica ou exagero de minha parte, mas a ciência já tem provado há anos que plantas se comunicam entre si e com outros organismos ao seu redor, como insetos e fungos. Até mesmo aquela samambaia pendurada na varanda da casa de sua tia tem voz. É simples de se “ouvir” o que elas falam, basta ir a um bosque ou a um jardim e respirar profundamente. O cheiro que você irá sentir ali são as palavras. Esse cheiro produzido por elas, como de eucalipto, laranja, folhas verdes, grama cortada, é chamado de compostos orgânicos voláteis, e as plantas produzem milhares deles, e juntos eles se misturam para formar as frases e as sentenças que elas precisam para enviar recados e serem entendidas. Essas “palavras” têm muitas funções, uma delas para avisar às outras plantas …

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Cacalo_pajaros-bandada

As notícias chegam pelos ares

No começo desconfiaram do sossego. Foram chegando de mansinho. E descobriram que haviam viveiros em todos os cantos, com sementes e frutas. Acharam amigável. Lamberam os bicos. E perceberam que um ser humano estava também por ali. Era o Reginaldo, um grandalhão, um sujeito que só queria ver umas asas na casa. Quando os pássaros iam chegando pareciam um pouco as andorinhas que um dia bailaram sobre o céu de Campinas e lhe deram o nome – Cidade das Andorinhas. Mas os pássaros, que eu saiba, nunca souberam dessa história. Foram estudando a casa e o grandalhão. Para quem seriam as coisas dos viveiros? Não seriam para o Reginaldo, lógico. No primeiro dia, só investigaram o ambiente. Nada de meter o bico em nada. Por enquanto. Assim, os pássaros foram chegando. Quer dizer, os pardais eram os mais numerosos, mas …

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